Musculação e consumo de proteínas são fundamentais para evitar perda de massa muscular

Especialistas comentam a importância de manter hábitos saudáveis durante a vida para evitar grandes transtornos ao corpo em situações adversas de saúde

A reserva muscular adquirida por um indivíduo ao longo da vida é essencial para a superação de traumas, cirurgias e recuperação de doenças, como no caso do ator Kayky Brito, vítima de atropelamento em setembro de 2023, em que os médicos afirmaram que sua rotina de atividade física e musculação foi fundamental no processo de recuperação. Guilherme Peixoto da Fonseca, professor da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da Universidade de São Paulo, discorre sobre a importância da musculação para a construção de reserva muscular e para a prevenção da perda de músculos.

Segundo o especialista, a condição que causa perda progressiva e generalizada de massa muscular recebe o nome de sarcopenia. Ele conta que a sarcopenia pode ser dividida em primária, a qual costuma ser mais natural e atinge geralmente os idosos, e a secundária, que acontece como resultado de condições inadequadas, como sedentarismo, doenças ou acidentes. Além da quantidade de músculos perdida com a sarcopenia, Fonseca reforça que esse transtorno afeta a força e a função dessas estruturas.

Conforme o professor, o corpo humano está em um constante processo de perda e ganho de massa muscular, em que a construção é obtida a partir de processos anabólicos de síntese, que aumentam a massa muscular, e a degradação é resultado dos processos catabólicos, ou seja, de redução dessas estruturas. “Durante a manutenção da massa muscular, estamos nesse equilíbrio constante entre o que está sendo sintetizado e o que está sendo degradado. Ao longo da vida, pode ocorrer um desequilíbrio, que reduz a síntese e, por consequência, aumenta a degradação, resultando numa redução da massa muscular, ou seja, a sarcopenia”, conta.

Construção de músculos

Fonseca explica que cada indivíduo gradualmente aumenta sua massa muscular e atinge o pico por volta dos 40 anos, momento em que começa uma pequena redução dessa massa. A partir dos 60 anos, segundo ele, a diminuição torna-se mais acentuada e, por isso, é necessário o acúmulo dessa massa magra durante toda a vida, pois o tecido muscular é muito plástico e se altera rapidamente.

De acordo com o docente, se uma pessoa consegue atingir o máximo de reserva muscular de acordo com seu ambiente fisiológico, seu corpo responderá melhor a situações de estresse físico. Ele explica que, do ponto de vista energético, os músculos consomem muita energia, portanto são utilizados como fontes de nutrientes para a recuperação de pacientes em situações adversas.

“Essa reserva muscular vai ser muito importante em algum momento da vida em que uma pessoa tem uma condição clínica desfavorável, como uma imobilização, hospitalização, um quadro agudo ou um procedimento cirúrgico. Esse acúmulo vai fazer com que o paciente se recupere melhor, porque os nutrientes necessários para sua reabilitação, em boa parte, vêm da parte muscular”, diz.

Doenças e diagnóstico

Conforme Tiago Fernandes, também professor da EEFE, a ferramenta mais recomendada atualmente para o diagnóstico da sarcopenia é a sugerida pelo consenso europeu, European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP), publicado em 2019, no qual se enfatiza o comprometimento da força muscular como componente principal do quadro. Ele enfatiza que não existem, até o momento, marcadores ou exames laboratoriais para diagnosticar a doença.

De acordo com o docente, a perda da massa muscular pode ser encontrada em diversas doenças, sendo elas tanto crônico-degenerativas, tais como obesidade, diabete e a insuficiência cardíaca, quanto a oncológica, a aids e as distrofias musculares de origem neurogênica. Ele afirma que essa perda é considerada um preditor independentemente de mortalidade. “Portanto, o estado geral de doença que envolve perda de peso marcante e perda de massa muscular leva ao quadro que chamamos de caquexia. A caquexia costuma ser sinal de alguma doença, como câncer, aids ou insuficiência cardíaca; e os sintomas incluem perda de peso, perda de massa muscular, falta de apetite, fadiga e diminuição de força”, afirma Fernandes.

Assim como complementa Guilherme Fonseca, além de ser resultado de algumas enfermidades, a própria sarcopenia pode provocar doenças, como a diabete tipo 2. Segundo ele, o tecido muscular é responsável por consumir grande parte da glicose circulante, então, conforme um paciente tem reduzida a sua massa muscular, tem menos tecido para consumir a glicose presente.

“Portanto, a glicose começa a se acumular na corrente sanguínea, que vai elevar a glicemia e pode desenvolver um quadro de pré-diabete e, futuramente, pode evoluir para o diagnóstico de fato da doença. Apesar da redução de massa muscular aumentar a incidência de diabete tipo 2, tem-se evidências que o inverso também é verdadeiro, pois o indivíduo que tem diabete pode desenvolver mais facilmente a sarcopenia”, relata Fonseca.

Síntese de tecido muscular

Os especialistas afirmam que a construção de massa muscular para prevenção da sarcopenia e as doenças decorrentes desse quadro clínico pode ser realizada principalmente por duas práticas: a musculação e a alimentação rica em proteínas. Fernandes comenta que a combinação dessas duas práticas contribui para uma reserva de massa muscular e óssea no futuro, garantindo autonomia, mobilidade, melhora da imunidade e redução no risco de diversas doenças. “Além disso, quando os músculos estão fortes e ativos, eles exercem mais tensão nos ossos durante a atividade física, o que estimula a produção de novo tecido ósseo”, informa.

Para Guilherme Fonseca, a atividade física mais recomendada para a construção desse tecido é o treinamento resistido, popularmente conhecido como musculação, no qual é fundamental incluir exercícios com os grandes grupos musculares: peitoral, costas, membros inferiores, quadríceps, parte posterior da coxa, glúteos e tronco.

“Essa resistência pode ser gerada por máquinas, elásticos e o próprio peso corporal, numa frequência de duas a três vezes por semana. Já a parte do consumo de proteínas pode ser feita via alimentação ou suplementação. Se uma pessoa come muito pouco de manhã, tenta aumentar um pouco esse consumo no almoço e na janta. Então, a associação treinamento de força e consumo de proteína é essencial”, finaliza.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira

FONTE: Jornal da USP

Fragmentos tóxicos de proteínas no cérebro podem ser marcadores de Alzheimer em vida

Biomarcador ajudaria no monitoramento da doença de Alzheimer, para a qual não há um marcador único que possa fornecer um diagnóstico definitivo em vida

Tauopatias são doenças neurodegenerativas associadas a depósitos anormais de uma proteína chamada tau no cérebro, com alta mortalidade e sem cura. O tipo mais comum de tauopatia é a doença de Alzheimer e, atualmente, não há um biomarcador que identifique a doença com precisão no paciente em vida. O diagnóstico é feito em entrevista com o paciente, avaliação neuropsicológica e por exclusão de outras doenças em exames de sangue e imagem.

Trabalho de cientistas da USP e da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, avalia o uso de fragmentos da proteína nos líquidos cerebrais como biomarcador para diagnóstico em vida e monitoramento de Alzheimer e doenças similares.

Os resultados do trabalho são relatados em artigo publicado pela revista científica Acta Neuropathologica Communications. “A doença de Alzheimer afeta milhões de pessoas no mundo, entretanto, existem outras tauopatias mais raras, incluindo a encefalopatia traumática crônica que afeta atletas e a paralisia supranuclear progressiva”, afirmam Lea Grinberg, professora da UCSF e da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), e Liara Rizzi, pós-doutoranda da Unicamp, autoras do artigo.

“Um estudo prévio feito pelo nosso grupo de pesquisa identificou no tecido cerebral humano após a morte que o número de neurônios que acumulam tau clivada por caspase, que é neurotóxica, é similar ao número de neurônios que acumulam tau fosforilada, ou fosfo-tau, a alteração mais estudada em doenças neurodegenerativas”, relatam as pesquisadoras. As caspases são um grupo de proteases, enzimas que dividem proteínas, comumente associadas a inflamação e morte celular (apoptose), e que participam da quebra da proteína tau (proteólise).

Mecanismos patológicos induzidos pela proteína tau fragmentada pelas caspases, grupo de proteases, enzimas que dividem proteínas, comumente associadas a inflamação e morte celular – Ilustração: Reprodução do artigo

“A proteína tau pode sofrer clivagem por várias caspases, incluindo as dos tipos 1, 2, 3, 6, 7 e 8, no entanto, a sobreposição é de apenas 45%”, apontam Lea Grinberg e Liara Rizzi. “Isso sugere que estudos baseados somente em fosfo-tau não identificam completamente a patologia da proteína tau e que, em casos de divisão pelas caspases, ela é parcialmente distinta e complementar a da fosfo-tau”.

Diagnóstico em vida

De acordo com as cientistas, estudos sobre formas de tau divididas pelas caspases no líquido cefalorraquidiano e no soro do cérebro são limitados, mas as descobertas emergentes mostram-se promissoras, sublinhando a necessidade de uma exploração mais profunda. “Essas pesquisas mostram que a detecção de fragmentos neurotóxicos de tau oferecem uma oportunidade para diagnóstico in vivo e monitoramento de doenças neurodegenerativas”, ressaltam.

Locais onde a proteína tau pode ser divididas pelas caspases (linhas vermelhas); grupo de pesquisa desenvolveu ensaio químico para detecção de tau truncada por caspase no liquor do cérebro – Ilustração: Reprodução do artigo

“Dessa forma, dada a abundância de tau dividida pela caspase-6 na doença de Alzheimer e a escassez em tauopatias 4R, como a paralisia supranuclear progressiva, vale a pena testar se um ensaio com esse tipo de tau tem melhor desempenho na sua identificação do que os baseados em fosfo-tau”, apontam Lea Grinberg e Liara Rizzi. “Provavelmente, a aplicação mais pertinente é a identificação de patologia não associada a fosfo-tau na doença de Alzheimer.”

As pesquisadoras acrescentam que a detecção de tau dividida por caspase in vivo pode ser extremamente significativa tanto para fins diagnósticos quanto terapêuticos. “Nosso grupo desenvolveu um ensaio químico para detecção de tau truncada por caspase no líquor do cérebro, que agora está em testes com amostras clínicas.”

O estudo contou também com a participação dos pesquisadores Lea Julio, Rojas-Martinez e Michelle Arkin, do Memory and Aging Center da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF). A primeira autora do artigo é Liara Rizzi, pós-doutoranda da Unicamp, que teve parte de sua bolsa para fazer pesquisas na UCSF financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Mais informações: e-mails lea.grinberg@ucsf.edu, com Lea Grinberg, e Liara.Rizzi@ucsf.edu, com Liara Rizzi

FONTE: Jornal da USP

Estudo clínico busca recrutar voluntárias para pesquisa sobre distúrbios gastrointestinais

A Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo está produzindo um estudo clínico que irá avaliar o uso de probióticos em mulheres com constipação, diarreia e síndrome do intestino irritável, distúrbios do eixo intestino-cérebro, com uma conexão bidirecional do intestino com o cérebro. De acordo com Ilana Marques, pesquisadora do Laboratório de Nutrição e Cirurgia Metabólica do Aparelho Digestivo da FMUSP, esses distúrbios estão associados a fatores relacionados ao estilo de vida e ao estresse, o que explica um aumento dos casos na população brasileira após a pandemia.

A pesquisadora explica que, além dos fatores associados à qualidade de vida, a síndrome do intestino irritável, considerada uma das doenças funcionais mais comuns dos distúrbios crônicos intestinais, também tem uma forte relação hormonal, que atinge majoritariamente a população feminina. “Então, a maior presença de hormônios como estrogênio, progesterona, pode afetar a motilidade intestinal, além de afetar na sensibilidade do trato gastrointestinal; fatores como estresse, ansiedade, depressão, também têm uma maior associação com o sexo feminino”, complementa.

“Normalmente isso é negligenciado, ou muitas vezes é normalizado, então a paciente acha normal ter sintomas gastrointestinais há mais de seis meses ou ter alteração do padrão evacuatório, então, ter uma constipação de somente ir ao banheiro uma vez por semana, e isso não é normal. Isso deve ser investigado e a paciente deve buscar ajuda”, afirma.

Sobre o estudo

Ilana comenta que, a fim de analisar se as condições das mulheres com constipação ou diarreia funcional e síndrome do intestino irritável podem ser beneficiadas por suplementação probiótica — microrganismos benéficos que modificam o ambiente intestinal. O estudo irá contar com 80 voluntárias mulheres, que irão receber, por 12 semanas, a suplementação de um probiótico específico ou de um placebo.

Com um acompanhamento durante as semanas do estudo, a pesquisadora comenta: “Essas pacientes irão fazer um exame de microbiota intestinal no começo e um no final do estudo, e nós queremos entender se o probiótico modificou sintomas gastrointestinais, como dor abdominal, se mudou qualidade de vida, hábito intestinal e microbiota intestinal. Esses são os principais objetivos do nosso estudo”.

Com uma conexão do sistema intestinal com o cérebro, a especialista afirma que há comunicação e impacto da microbiota — microrganismos que colonizam o trato gastrointestinal — com o cérebro. “Esses microrganismos podem produzir neurotransmissores, produzir toxinas e aumentar o nível de estresse, aumentar agitação e ansiedade. É uma área que mostra a conexão desses dois locais, intestino e cérebro, e nós buscamos entender mais disso no estudo”, adiciona.

Sobre os critérios de inclusão da pesquisa, Ilana explica que podem participar mulheres, entre 18 e 60 anos, que tenham constipação, diarreia ou síndrome do intestino irritável — que pode ser reconhecido pelo sintoma de dor abdominal — há mais de seis meses e que residam em São Paulo ou Região Metropolitana, contanto que não tenham feito uso de antibiótico nos últimos três meses e que não tenham outra condição clínica ou doença associada que acabe alterando o perfil intestinal.

Com os exames de microbiota intestinal e o ressarcimento das visitas presenciais inclusos, detalhes e informações sobre o estudo clínico realizado pela FMUSP podem ser encontrados pelo Instagram (metanutri.fmusp) ou e-mail (metanutri.recrutamento@gmail.com).

FONTE: Jornal da USP

Mapeamento da retina pode indicar risco de Alzheimer

O Alzheimer, um tipo de demência, é uma doença silenciosa. Chega gradualmente e, quando recebido o diagnóstico, pode já estar em um estado avançado. Várias frentes de estudo se propõem a encontrar maneiras de identificar os sintomas o mais cedo possível, visando assim a um tratamento mais eficiente – vale lembrar que ainda não há uma cura, apenas cuidados paliativos. Um estudo britânico, publicado recentemente, é mais um que vem para somar a essas frentes, trazendo dados promissores. O professor Mario Luiz Ribeiro Monteiro, do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da USP, fala sobre o estudo.

A visão começa no olho, a imagem é formada na retina e ela é transportada pelo nervo óptico, passando por outras estruturas até chegar ao cérebro. Já se sabia que o Alzheimer poderia ter impacto na visão do ponto de vista neurológico. O professor exemplifica alguns dos efeitos: “Sensibilidade ao contraste, à percepção de cores, à percepção de movimento ou dificuldade de interpretar imagens”. O que se descobriu agora é que a doença afeta não só o cérebro, mas também o percurso da imagem. Monteiro afirma que “ela acomete também essa porção anterior”, sendo a “retina nervosa quase como prolongamentos do cérebro”.

Os benefícios dessa descoberta perfazem uma nova linha de pesquisa, a qual pode ajudar a identificar a demência em estágio inicial. A partir da análise do olho, não só do cérebro, será possível “procurar um achado que seja específico da doença e que possa ser um indício da doença precocemente”.

Estudos em andamento

Um dos componentes específicos que podem ser procurados é a proteína beta-amiloide, característica dos casos de Alzheimer. “Descobriu-se também que essas placas beta-amiloides ocorrem também na retina, então a tentativa agora é encontrar métodos que identifiquem essas placas [na retina]”, diz ele.

Um estudo em andamento na Faculdade de Medicina da USP, em paralelo com outros lugares do mundo, faz parte dessa frente promissora. A partir de fotos de retina com a técnica hiperespectral, em que uma única fotografia produz imagens com diferentes comprimentos de onda, procura-se avaliar indicadores de demência.

Monteiro comenta: “O diferencial desse estudo é que os pacientes são catalogados por terem alteração no PET Scan (tomografia por emissão de positrões) ou não, então, os pacientes eram separados por quem tem a proteína beta-amiloide e aqueles que não têm”. Os dados são então submetidos a um computador associado à inteligência artificial, cuja função é, segundo a expectativa, traçar padrões de identificação.

FONTE: Jornal da USP

Nanopartículas são esperança para aprimorar diagnóstico de câncer de mama

Estudo multidisciplinar traz abordagem inovadora, demonstrando a viabilidade da aplicação das nanopartículas de óxido de ferro com revestimento polimérico.

O câncer de mama continua a ser uma preocupação global, exercendo um impacto significativo na vida de inúmeras mulheres ao redor do mundo. Entre os desafios enfrentados por pacientes diagnosticadas com esta enfermidade, destaca-se a condição daquelas com alta expressão de HER2, uma proteína encontrada em níveis anormalmente elevados na membrana das células cancerígenas. Tais pacientes enfrentam um risco aumentado de metástase, particularmente para o cérebro, e experimentam uma menor expectativa de vida.

Nesse cenário, um estudo realizado em parceria entre pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Centro Nacional de Pesquisa em Energias e Materiais (CNPEM), do Instituto de Pesquisas Técnológicas (IPT), e do Instituto de Física (IF) da USP, e publicado na revista Nanomedicine, apresenta uma abordagem inovadora para identificar esses pacientes de forma mais rápida e acessível. A pesquisa propõe a utilização de nanopartículas híbridas, compostas de óxido de ferro e com revestimento polimérico, adequadamente funcionalizadas para detectar esse tipo particular de células tumorais, promovendo um potencial promissor no diagnóstico do câncer de mama. Além da ampla e aprimorada caracterização do nanomaterial, a qual contou com o apoio do IF, o estudo oferece resultados sobre sua toxicidade e demonstra a viabilidade de sua aplicação.

O trabalho, que contou com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Apoio ao Instituto de Pesquisas Tecnológicas (FIPT), teve origem na tese de doutorado de Cyro von Zuben na Unicamp, e representa um exemplo destacado de colaboração multidisciplinar, envolvendo áreas como física, química, biologia e medicina. Tal diversidade reflete também a complexidade do projeto, abrangendo desde a caracterização das propriedades do material até seu potencial aplicação clínica.

Embora represente um avanço encorajador no diagnóstico do câncer de mama, o estudo está em estágios iniciais e enfrenta desafios futuros, como ensaios em animais e amostras humanas. No entanto, os autores acreditam que represente uma esperança tangível para melhorar os resultados clínicos, destacando a importância da colaboração entre diversas áreas e instituições na busca por soluções inovadoras para enfrentar essa doença devastadora.

Acesse o artigo HER2 aptamer-conjugated iron oxide nanoparticles with PDMAEMA-b-PMPC coating for breast cancer cell identification em http://bit.ly/4d3bEEe!

*Comunicação do Instituto de Física com informações dos autores

*Estagiário sob supervisão de Moisés Dorado

FONTE: Jornal da USP

Olheiras: conheça as causas das manchas embaixo dos olhos

Cerca de 78% dos casos de olheiras (cujo nome científico é hiperpigmentação periorbital) são observados em mulheres. A informação faz parte de um estudo publicado na revista Surgical & Cosmetic Dermatology da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Os fatores causadores do problema podem ser os mais diversos: tabagismo, exposição solar, insônia, uma noite mal dormida, entre muitos outros que podem causar o aumento da pigmentação ao redor dos olhos.

Maria Cecília Rivitti Machado, médica dermatologista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que “o mais comum é que a olheira se deva a um aumento da produção de melanina no local, mas outras causas também ocorrem, um afinamento da pele em que a vascularização se torne mais visível, um aumento da vascularização, também pode ocorrer, e esses processos podem ser de natureza fisiológica”.

As olheiras muitas vezes podem indicar doenças. Quem sofre de rinite, por exemplo, tende a ter manchas nos olhos. A principal doença que pode ser identificada através do aumento da cor na pálpebra superior é uma chamada dermatomiosite, doença autoimune em que há inflamação da pele e dos músculos, com fraqueza, sensibilidade à luz solar e aumento da pigmentação ao redor dos olhos. Ela pode apresentar uma forma mais avermelhada ou arroxeada, ou acastanhada, dependendo do tom de pele do paciente.

A genética também pode ser uma causa com uma propensão étnico-racial e também individual, causando um pigmento mais acentuado na região. A dermatologista explica que “existem até mesmo situações em que a olheira corresponde a uma névoa, como se fosse uma pinta nas camadas mais inferiores da pele.” O tratamento depende essencialmente do tipo de pigmento e das condições da pele. Mesmo sendo vista como um problema cosmético ou estético, deve ser adequadamente tratado e diagnosticado.

Não ao autodiagnóstico

O profissional mais habilitado a fazer o diagnóstico diferencial entre os diferentes tipos de olheira é o médico dermatologista, que tem o treinamento adequado para fazer o diagnóstico e indicar o tratamento apropriado. O autodiagnóstico pode ser um risco, explica a dermatologista. “A tendência atual ao autodiagnóstico, baseado em inteligência artificial e sem confirmação posterior pelo médico, e a indução por parte da indústria cosmética também ao autodiagnóstico estético e à autoprescrição de tratamentos é crítico em qualquer parte do corpo e se torna especialmente arriscado na área ao redor dos olhos.”

As olheiras podem ser amenizadas com tratamentos como peeling, cremes lasers, mas a especialista recomenda que o diagnóstico seja feito por um médico. “Antes da instituição dessas medidas, é necessário um diagnóstico apropriado. Nem sempre a olheira vai ser um problema cosmético. O ideal é  procurar o médico dermatologista. Pensar também que, se toda a pele é muito nobre, a pele da pálpebra, próxima aos olhos, é uma região muito crítica quando se vai fazer uso de qualquer tipo de produto. Cuidado com a autoprescrição, não só de medicamentos, mas também de substâncias cosméticas.”

A dermatologista alerta que as olheiras são comuns em pacientes com doenças crônicas, não só com rinite, mas também portadores de dermatite atópica.

FONTE: Jornal da USP

Treinamento de equilíbrio pode minimizar sintoma do Parkinson e risco de quedas

Pesquisa testou dois métodos de treinamento com pacientes de Parkinson e constatou melhora no congelamento de marcha, que é a perda repentina na capacidade de locomoção

Um dos sintomas ocasionados pela Doença de Parkinson é o chamado congelamento de marcha, que faz com que os indivíduos percam, de maneira repentina e temporária, a capacidade de mover as pernas para se locomover, tornando-os mais suscetíveis a quedas. Uma das principais maneiras de minimizar o sintoma é por meio de  medicamentos, mas estudos realizados pelo Laboratório de Sistemas Motores Humanos da Escola de Educação e Esporte (EEFE) da USP mostraram que o treinamento por meio de perturbações do equilíbrio corporal pode ser um grande aliado do tratamento.

Uma pesquisa conduzida por Caroline Ribeiro de Souza, com orientação do professor Luis Augusto Teixeira, testou dois métodos de treinamento em portadores da doença de Parkinson acometidos pelo congelamento de marcha. Ao final do estudo, os participantes notaram uma redução na ocorrência do sintoma e maior controle do equilíbrio, o que ajudou a diminuir o risco de quedas.

Treinamento de equilíbrio X resistência muscular

A pesquisa teve participação de 19 voluntários, pacientes do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). A seleção foi feita seguindo alguns critérios, como não possuir distúrbios além daqueles oriundos da doença de Parkinson e nem ter alteração na dosagem do medicamento utilizado para tratar a doença durante a realização do estudo.

Os participantes foram divididos em dois grupos. No primeiro, com nove pessoas, foi realizado treinamento de equilíbrio baseado em perturbações. Este treinamento foi realizado por meio de uma plataforma móvel que se deslocava da esquerda para direita (movimento de translação) e inclinava-se (movimento de rotação). Os participantes realizaram os exercícios em posições que direcionaram a perturbação para o eixo anteroposterior (região anterior e posterior do corpo) e mediolateral (do centro do corpo para esquerda ou direita, na horizontal).

As perturbações eram realizadas em oito blocos com 16 movimentos diferentes cada, tendo a dificuldade aumentado progressivamente a cada sessão. Os participantes experimentaram 128 movimentos na plataforma por sessão, totalizando 1.024 ao final do estudo.

Infográfico desenhado com base no estudo – Foto: EEFE-USP

Para o segundo grupo, foi aplicado um protocolo de treinamento de resistência muscular. O treinamento de resistência foi feito com exercícios realizados em máquinas de força, como supino torácico, remador, peck deck, extensão de pernas, leg press e flexão plantar na máquina leg press, com o objetivo de trabalhar os músculos dos membros superiores e inferiores.

A prática dos exercícios tanto de equilíbrio quanto de resistência foi oferecida duas vezes por semana, durante um mês, e cada sessão durava 55 minutos, envolvendo cinco minutos de caminhada, quarenta do treinamento específico – equilíbrio ou resistência – e dez minutos de relaxamento.

O treinamento de resistência foi feito com exercícios realizados em máquinas de força – Foto: Guilherme Viana

Menores chances de queda

Em momentos de instabilidade, o corpo realiza movimentos compensatórios para manter o equilíbrio e evitar uma possível queda. Um dos principais objetivos do estudo era analisar como esse mecanismo seria utilizado pelos voluntários dos dois grupos em resposta às perturbações.

Para isso, os pesquisadores examinaram os movimentos feitos pelos participantes durante testes feitos com a plataforma, aplicados aos dois grupos. Eles foram realizados antes do treinamento, 24 horas após o fim e, também, 30 dias depois. Os movimentos foram classificados de acordo com categorias pré-estabelecidas, ilustradas abaixo.

Infográfico desenhado com base no estudo – Imagem: EEFE-USP

Os resultados constataram que tanto o treinamento de equilíbrio baseado em perturbação quanto o treinamento de resistência parecem ter reduzido a ocorrência do congelamento de marcha. Contudo, os voluntários que fizeram o treinamento de equilíbrio mostraram o uso de movimentos mais estáveis como resposta às perturbações e uma redução expressiva de situações com quase-queda quando comparado ao de resistência, tendo mantido esse desempenho mesmo após um mês sem fazer os exercícios.

A pesquisa mostra a importância de pensar a prática motora, principalmente o treinamento baseado em perturbações do equilíbrio corporal, como uma forma de terapia que pode melhorar a condição de indivíduos com a doença de Parkinson.

“A persistência dos ganhos do treinamento por perturbações mostra que essa pode ser uma opção eficiente como recurso terapêutico para a prevenção de quedas no cotidiano. Outro ponto que vale destacar é o uso da análise dos movimentos compensatórios para realizar a avaliação da estabilidade postural, pois trata-se de um método fácil de ser aplicado, inclusive na prática clínica”, explicou a pesquisadora Carolina Ribeiro de Souza.

O estudo contou com a participação de Júlia Ávila de Oliveira, Patricia Sayuri Takazono, Lucas da Silva Rezende, Carla Silva-Batista e Daniel Boari Coelho. Intitulado Perturbation-based balance training leads to improved reactive postural responses in individuals with Parkinson’s disease and freezing of gait, a pesquisa foi publicada no periódico European Journal of Neuroscience e pode ser acessada por meio do link: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/ejn.16039

*Da Assessoria da EEFE, adaptado para o Jornal da USP
**Estagiário sob supervisão de Simone Gomes

Consumo excessivo de proteínas pode causar doenças cardiovasculares

Pesquisa feita pela Universidade de Pittsburgh e publicada na revista especializada Nature Metabolism mostra que o excesso de proteínas pode prejudicar a saúde e indica que dietas com mais de 22% de proteína aumentam significativamente o risco de aterosclerose, podendo levar a doenças cardiovasculares. Dan Linetzky Waitzberg, professor do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de São Paulo (USP) e do Laboratório de Nutrição e Cirurgia Metabólica do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas (HC), explica quais os impactos desse consumo excessivo no organismo e a importância de acompanhamento profissional nas dietas.

Aminoácido leucina

De acordo com o especialista, as proteínas animais estão associadas ao aumento da lipoproteína de baixa densidade, também conhecida como colesterol LDL, e também da inflamação crônica e estresse oxidativo, o que pode ser fator de risco para doenças cardiovasculares. Ele conta que, em parte, isso pode ser explicado pelas altas taxas de gordura saturada e colesterol que estão presentes nas fontes da proteína animal.Waitzberg conta que a pesquisa feita nas universidades de Pittsburgh e Missouri com camundongos mostrou que não apenas o acúmulo de gordura é responsável pela aterosclerose, mas também o aminoácido leucina, que não é sintetizado pelo corpo humano e precisa ser ingerido nas carnes. “A novidade é que não é o acúmulo de gordura apenas como responsável, pois há uma sinalização desse aminoácido leucina contribuindo para que macrófagos sejam ativados e eles sinalizam para a formação da placa aterosclerótica. Então, é um mecanismo novo, eles encontraram e responsabilizaram um determinado aminoácido como sinalizador molecular”, explica.

Dietas

Conforme o docente, a indicação de dietas proteicas precisa levar em conta as subjetividades de cada indivíduo, como peso, idade, gênero e rotina de atividades físicas. Ele conta que as dietas são divididas em normoproteica, hiperproteica ou hipoproteica, dependendo do quanto de proteína precisa ser consumida no dia pela pessoa.

“Uma pessoa saudável, que pratica atividade física regularmente e não tem nenhuma doença metabólica, precisa de cerca de 18% a 20% de proteína nas suas refeições diárias. O que acontece é que, nos Estados Unidos, local da pesquisa, eles consomem níveis alarmantes de proteína e gordura saturada, principalmente pela questão cultural de comer alimentos como bacon e hambúrguer a todo instante”, explica.

Acompanhamento profissional

Para Dan Linetzky Waitzberg, a dieta brasileira, composta geralmente por arroz, feijão, salada e um pedaço de carne, é altamente equilibrada do ponto de vista nutricional. Ele alerta, contudo, que o problema no País é o inverso do que ocorre nos EUA, já que, por motivos socioeconômicos, muitos indivíduos não têm acesso à proteína.

“Então, se alguém quer fazer um regime ou perder peso, é fundamental que procure um nutricionista para que seja feito um perfil metabólico e genético da pessoa. A partir dessa análise de qualidade de sono, nível de estresse e condições familiares e socioeconômicas, é possível traçar a melhor dieta para cada indivíduo”, finaliza.

FONTE: Jornal da USP

Aumento no volume de treino de força reverte perda muscular em idosos

Pesquisa com idosos saudáveis de ambos os sexos mostrou que aumentar séries de exercícios de resistência pode ser uma estratégia simples para elevar a massa muscular e a força entre os que não respondem ao treino de baixo volume

Treinos de força, como a musculação, são considerados altamente eficazes para promover ganhos de massa muscular (hipertrofia) em idosos e recuperar sua capacidade funcional, porém, nem todos respondem bem a essa atividade. Enquanto alguns apresentam aumentos expressivos de massa magra (considerados como “responsivos”) outros relatam ganhos insignificantes (“não-responsivos”).

Pesquisadores da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP demonstraram que o aumento no volume de treinamento pode mitigar a falta de resposta entre idosos. Do total de voluntários não responsivos, 80% deles responderam melhor aos treinos após a intervenção, e entre os responsivos, 47% aumentaram ainda mais a massa muscular em função dos exercícios realizados.

Os resultados desse trabalho foram publicados no artigo Resistance training volume and non responsiveness in older individual no Journal of Applied Pysiology, em fevereiro de 2024, e também fez parte de uma tese defendida na EEFE pelo educador físico Manoel Lixandrão, sob a orientação do professor Hamilton Roschel, da EEFE.

Segundo o estudo, após os 30 anos, o declínio de massa muscular acontece em torno de 3 a 8% e, depois dos 60 anos, o aumento é ainda mais drástico. “Essa condição torna as pessoas mais vulneráveis e propensas a quedas, fraturas e a outros traumas”.

Embora se saiba que a aplicação de estímulos de exercícios padronizados não resulta em respostas de ganhos de força e de massa muscular uniformes entre sujeitos distintos, os reais motivos destas diferenças ainda não são totalmente compreendidos, diz Roschel. Segundo o pesquisador, há fatores extrínsecos (a alimentação, o sono e níveis de estresse), mas existem também fatores intrínsecos (a genética e o perfil hormonal, por exemplo) que desempenham papel igualmente importante na performance do ganho de massa muscular.

Perfil dos participantes

Para a pesquisa, Lixandrão selecionou 85 voluntários maiores de 60 anos, de ambos os sexos e clinicamente saudáveis, sem histórico de diabetes tipo I ou doenças isquêmicas do miocárdio, com a pressão arterial controlada, sem lesões ou doenças músculos esqueléticas, e com índice médio de massa corporal de 26,4 (cálculo feito dividindo o peso em kg pela altura ao quadrado). Destes, 60% (51, sendo 27 homens e 24 mulheres), com média de idade de 69 anos, não respondiam adequadamente ao ganho de massa muscular, e 40% (34, sendo 14 homens e 20 mulheres), com idade média de 68 anos, respondiam melhor ao ganho de massa muscular.

Os treinos propostos foram realizados em cadeiras extensoras unilaterais, por um período de dez semanas, com duas sessões semanais. Cada uma das pernas foi aleatoriamente alocada para um dos dois modelos de treinos: um composto de uma única série com 8 a 15 repetições máximas e, o outro, por quatro séries de 8 a 15 repetições máximas. Ao longo dos treinos, os pesquisadores foram ajustando a carga executada pelos voluntários.

Antes e após as intervenções, os participantes foram submetidos a um exame de ressonância magnética do músculo quadríceps femoral (músculo da parte anterior da coxa) para quantificar as mudanças no tamanho, bem como um teste de força máximo, para avaliar os ganhos de força muscular dos membros inferiores.

Resultados

Os resultados demonstram que, embora houvesse alta variabilidade de resposta de ganho de massa muscular em idosos submetidos a treinamentos de força, essa resposta foi alterada pela manipulação do volume de treino. Após as dez semanas de exercícios, a perna que foi submetida ao segundo treino (quatro séries de 8 a 15 repetições) teve melhor resposta hipertrófica (houve maior ganho de músculos) do que a perna que executou o primeiro treino (uma série de 8 a 15 repetições).

Entre todos os indivíduos classificados como não-responsivos, aumentos no volume de treinamento promoveram ganhos adicionais tanto de massa magra (1% para quem fez o primeiro treino e 5% para quem fez o segundo) quanto de força muscular (6% para o primeiro treino e 13% para o segundo).

Segundo Lixandrão, apesar da falta de diferenças estatisticamente significantes, uma resposta semelhante foi observada também entre aqueles responsivos à intervenção. Eles tiveram ganhos adicionais de massa (5% para quem fez menos repetições e 7% para quem fez mais repetições) e de força muscular (8% para quem fez menos repetições e 12% para quem fez mais).

Quando os pesquisadores avaliaram as respostas de maneira individualizada, dos 51 idosos classificados como não-responsivos (os que apresentaram dificuldade em obter ganho de massa muscular), 80% passaram a responder melhor aos exercícios quando o volume de treinamento foi aumentado. “Esse efeito também foi observado entre os idosos que já eram responsivos. Cerca de 47% aumentaram a massa muscular em função de maior volume de treinamento.

Como recomendação, Lixandrão diz que apesar de terem identificado que volumes maiores de exercícios minimizam a baixa responsividade em idosos, o aumento da quantidade de exercício não deve ser realizado de maneira indiscriminada, pois também pode implicar em prejuízos para as pessoas. “Todo treino deve ser individualizado e acompanhado por um profissional de educação física”, avalia.

Mais informações: e-mail lixandrao@usp.br, com Manoel E. Lixandrão; e-mail hars@usp.br, com Hamilton Roschel.

*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado

FONTE: Jornal da USP

Molécula extraída de vespas é promessa para controle da epilepsia

Testes em camundongos liderados por equipe da USP em Ribeirão Preto obtiveram composto capaz de bloquear ação de substâncias nocivas aos neurônios

Venenos e peçonhas podem parecer assustadores à primeira vista. Na natureza, os animais peçonhentos injetam toxinas capazes de alterar o metabolismo de outro animal e até matá-lo, mas também são considerados ferramentas valiosas para a ciência. É o que ocorre com a peçonha da espécie de vespa social típica do Cerrado, conhecida popularmente como marimbondo-estrela. Cientistas brasileiros descobriram na peçonha do inseto uma substância com potencial para tratar epilepsia e, ao mesmo tempo, proteger o cérebro: a occidentalina-1202.

O estudo, realizado com experimentos em animais, foi conduzido pela pesquisadora Márcia Mortari nos laboratórios de biologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP) da USP, durante seu doutorado sob orientação do professor Wagner Ferreira dos Santos, do Departamento de Biologia da FFCLRP. Os resultados da pesquisa, publicados na Brain Communications, mostram o composto isolado da peçonha da vespa como eficaz no tratamento de modelos agudos e crônicos de epilepsia, sem efeitos colaterais no comportamento motor e cognitivo dos animais testados. Ao lado desses benefícios, observaram também atividade protetora sobre as células nervosas do cérebro.

Segundo o professor Santos, a occidentalina-1202 consegue atravessar a barreira hematoencefálica (que protege o cérebro de substâncias nocivas presentes no sangue), chegar ao cérebro e bloquear a ação do cainato, uma toxina que atinge os neurônios e é utilizada experimentalmente para induzir crises epilépticas em animais, através dos receptores específicos para o glutamato (ou ácido glutâmico). O composto atua nesse sistema de receptores e protege o cérebro da “excitotoxicidade” que resulta na morte dos neurônios.

“É isso que ocorre na epilepsia, como em outras doenças agudas e crônicas do tecido nervoso”, afirma o professor ao informar que a occidentalina-1202(s) então é capaz de “bloquear a ligação do cainato nos seus receptores, inibindo a continuação desta cascata lesiva, causando a neuroproteção.”

Dos testes com vespas sociais à occidentalina-1202

Tudo começa com a coleta das vespas fêmeas, que são cuidadosamente congeladas para preservar suas propriedades. Essa seleção não é fácil devido à violência dos insetos. “Para se fazer a coleta de vespas sociais temos que ter paciência e coragem; mesmo com roupa específica de coleta, sempre levei uma ou mais picadas desses insetos. Isso desestimula a continuar os trabalhos com esses himenópteros (grupo de insetos que inclui as vespas sociais)”, conta Santos.

Após a captura, o veneno é então extraído e purificado. Técnicas de separação específicas dividem a substância em partes menores, buscando identificar as que possuem propriedades medicinais. Depois, “testamos novamente, e em seguida, purificamos completamente o composto capaz de ter o efeito antiepiléptico”, conta Márcia.

Definido o peptídeo promissor, a equipe de cientistas desenvolvem um análogo, uma cópia modificada quimicamente que resulta então na occidentalina-1202(s), produto sintético que é mantido em solução específica (Ph entre 6,8 e 7,0) a 5ºC de temperatura por 72 horas para garantir sua estabilidade e pureza.

Em uma segunda fase, analisam os efeitos dos dois peptídeos (o natural e o sintético) em dois modelos de epilepsia aguda, induzidos por ácido caínico (o cainato) e pentilenotetrazol, substâncias que provocam convulsões.

A dose efetiva foi medida, tal como o índice terapêutico, os sinais elétricos do cérebro e a expressão de um gene chamado C-fos, que está relacionado à atividade neuronal.

Logo após, submetem a molécula sintética occidentalina-1202(s) a estudos mais específicos para avaliar sua eficácia na prevenção e controle de convulsões graves e prolongadas, além de obter informações detalhadas sobre os efeitos no tecido cerebral.

Já na quarta fase, verificam os possíveis efeitos adversos após a administração crônica, em testes que medem a capacidade de equilíbrio, memória e aprendizagem dos animais. Por fim, propõem um mecanismo de ação com a occidentalina-1202(s), usando modelos computacionais com receptores de cainato, demonstrando como a substância pode ajudar a controlar a atividade elétrica excessiva no cérebro, potencialmente reduzindo as convulsões epilépticas.

Resumo gráfico

Gráfico sobre etapas do estudo realizado – Imagem: Cedida pelos pesquisadores

A pesquisadora Márcia Mortari acrescenta que, para garantir a segurança em uso a longo prazo, testes seguem em andamento estudando o funcionamento e controle de neurotransmissores, como o glutamato, responsável por transmitir mensagens que estimulam a atividade dos neurônios e que, em níveis excessivos, pode causar crises epilépticas. “Estamos realizando todos os testes necessários para determinar a segurança do uso desse composto, utilizando uma série de ensaios de toxicidade e de determinação de efeitos adversos.”

Efeitos adversos menores

Caracterizada por convulsões causadas por descargas elétricas anormais no cérebro, a epilepsia atinge cerca de 50 milhões de pessoas ao redor do mundo (dados da Organização Mundial da Saúde, OMS) e o tratamento envolve a administração de fármacos antiepilépticos que, apesar de eficazes no controle das crises, podem provocar uma variedade de efeitos colaterais. Entre eles estão sedação, sonolência, tontura, problemas de memória e concentração, e até mesmo danos à medula óssea e ao fígado.

Para a agora professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília (UnB) Márcia Mortari, a occidentalina-1202 deve se tornar o início de uma nova classe promissora de peptídeos, extraídos da peçonha de vespas, para o desenvolvimento de medicamentos que interagem com o sistema nervoso central. “São moléculas com grande atividade e seletividade, e, por isso, possuem efeitos adversos menores”, afirma.

A falha dos atuais tratamentos da epilepsia está na possibilidade de “causar problemas neurobiológicos, cognitivos, psicossociais e reduzir a qualidade de vida do paciente”, acrescenta o professor Santos, lembrando que, em alguns casos, esses medicamentos se tornam ineficazes, o que é chamado de farmacorresistência.

Mesmo comemorando o achado, os cientistas afirmam que testes clínicos são necessários para confirmar se a occidentalina-1202 não oferece efeitos adversos. “Ainda estamos na fase de testes em animais, fase pré-clínica. Não obstante ele não tenha causado efeito motor e cognitivo ruins aos animais de experimentação”, conclui o professor.

Por que utilizar venenos e peçonhas?

No caso da peçonha das vespas Polybia occidentalis, Márcia lembra que o efeito produzido pelas picadas na defesa e captura de presas sempre intrigou a comunidade científica. “Elas são capazes de usar a peçonha para paralisar suas presas, no caso outros pequenos invertebrados”, explica. Esse efeito, segundo a pesquisadora, gerou a hipótese de que a substância poderia agir no nosso cérebro, reduzindo a atividade excessiva que caracteriza as crises epilépticas.

Peçonha da Polybia occidentalis pode ter efeitos em crise epiléptica – Foto: Carlos Eduardo Joos/Wikipedia/Creative Commons Attribution 2.0 Generic

Assim, o estudo desses compostos oferece “uma oportunidade de entendermos os mecanismos fisiológicos e bioquímicos que operam em diferentes organismos, inclusive em doenças, e assim desenvolver remédios”, afirma Santos, informando que existem inúmeros exemplos na ciência, como o captopril, um remédio para controle da pressão arterial que foi desenvolvido a partir de um peptídeo extraído da peçonha de uma serpente brasileira, a Bothrops jararaca. Outro exemplo, “o ziconotide, um analgésico para controle da dor causada por câncer e/ou AIDS, que não é usado no Brasil, mas foi desenvolvido a partir de um peptídeo de um caracol marinho das Filipinas”.

A pesquisa, conduzida por Márcia Mortari e Wagner dos Santos na USP em Ribeirão Preto, foi produzida em colaboração com outros pesquisadores da FFCLRP e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, além da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade de Lorraine, França. Contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF).

Mais informações: e-mail wagnerf@usp.br, com Wagner Ferreira dos Santos, ou mamortari@gmail.com, com Márcia Mortari

*Estagiário sob supervisão de Rita Stella

FONTE: Jornal da USP