O conhecimento sobre a saúde do brasileiro

Em agosto, voluntários do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil) serão convocados para novas entrevistas e bateria de exames para avaliar a saúde do brasileiro e a evolução de fatores de risco para doenças cardiovasculares, principal causa de morte no mundo.

esquisadores e voluntários se aquecem para a quarta onda do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil). O Elsa é um estudo de cunho epidemiológico que investiga na população brasileira a incidência e fatores de risco para doenças crônicas, em particular, as cardiovasculares (como acidente vascular cerebral, hipertensão, arteriosclerose, infarto, entre outras) e algumas doenças associadas. Os participantes da pesquisa, cerca de 15 mil pessoas de várias regiões do País, com idade entre 35 e 74 anos, serão novamente convocados em agosto para entrevistas e exames que identifiquem uma possível evolução dos fatores de risco para estas doenças – que são consideradas a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo.

Desde 2008, quando começou a coleta de dados, o Elsa-Brasil vem produzindo conhecimentos relevantes sobre a saúde da população adulta brasileira, dados que servirão para adequação de políticas públicas de saúde voltadas para as necessidades brasileiras.  A cada três ou quatro anos acontece uma nova onda presencial para prosseguimento da pesquisa e, anualmente, é feito um monitoramento por telefone ou WhatsApp que é contínuo durante todo o estudo. As perguntas versam sobre fatores de risco para doença cardiovascular, condições de vida, diferenças sociais, estresse no trabalho, conflito saúde familiar, saúde mental, questões de gênero e especificidades da dieta da população brasileira.

Na modalidade presencial, são realizados exames laboratoriais (hemograma, glicemia em jejum e após sobrecarga de glicose, colesterol total e frações, creatinina, ácido úrico, proteína C ultrassensível, hormônio tiretrófico – TSH, tiroxina-livre – T4-livre e insulina), medidas antropométricas como peso, circunferência abdominal, altura, índice de massa corporal (IMC), medidas de pressão arterial, avaliação de funcionalidades como equilíbrio, marcha e força muscular, avaliação cognitiva, bioimpedância para avaliação da composição corporal e porcentual de gordura e eletrocardiograma. Ao final, os resultados dos exames são disponibilizados aos participantes.r

“A cada onda, são produzidos novos dados e guardados em um servidor de pesquisa; depois de cruzados e analisados, resultam em informações muitas delas inéditas acerca da saúde da população brasileira”, relata ao Jornal da USP a médica epidemiologista Isabela M. Benseñor, coordenadora do Elsa- Brasil, em São Paulo, e professora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). “O estudo de coorte [acompanhamento de longo prazo] é um celeiro de produção de conhecimento. Até o momento, já foram publicados mais de 400 artigos científicos em revistas brasileiras e estrangeiras e capacitados mais de mil novos pesquisadores e pessoal técnico para trabalhar em pesquisa clínica”, diz.

Isabela M. Benseñor – Foto: Arquivo pessoal

O engajamento dos voluntários no projeto é alto, o que reflete no baixo porcentual de desistência de participação. Enquanto que estudos de coorte realizados em outros países perdem, de um ano para o outro, 20% de seus participantes, o Elsa, desde 2008, em 14 anos de existência, perdeu apenas 15%. Em geral, são casos de óbitos ou de pessoas que se aposentaram e foram morar em outras cidades, e que, no caso de mudanças, continuam sendo seguidas por telefone, informa a professora Isabela.

Inovação: inclusão de fatores de risco não clássicos para doenças cardiovasculares

O Elsa-Brasil inovou incluindo em suas investigações fatores de risco não clássicos ao estudo, que podem estar associados à incidência de doenças cardiovasculares, diz a pesquisadora. Além de manter os fatores clássicos como o tabagismo, obesidade, sedentarismo, hipertensão, diabete, estresse e dislipidemia, investigados em outros estudos de coorte, o Elsa-Brasil vem explorando fatores psicossociais: estresse no trabalho, diagnósticos psiquiátricos, conflito família-trabalho, eventos negativos de vida, capital social e características de vizinhança, além de outras doenças associadas como as tireoidianas (hipo e hipertireoidismo) e as inflamatórias autoimunes (artrite reumatoide, lúpus, síndrome de Sjögren), enxaquecas e sintomas psiquiátricos (depressão e ansiedade).

Em 2020, por conta da pandemia do coronavírus, os pesquisadores do Elsa avaliaram 2.117 participantes para saber se os níveis de sintomas psiquiátricos – ansiedade e depressão – cresceram durante a pandemia. O artigo Prevalence and risk factors of psychiatric symptoms and diagnoses before and during the covid-19 pandemic: findings from the Elsa-Brasil covid-19 mental health cohort indicou que a prevalência de transtornos mentais se manteve elevada, porém não teve aumento significativo na pandemia.

“A inclusão de fatores não clássicos trouxe a oportunidade de análise da interação entre doenças inflamatórias, cardiovasculares e sintomas psiquiátricos e se essa coexistência aumentaria o risco de desfechos cardiovasculares fatais e não fatais e de mortalidade geral e por doenças cardiovasculares”, diz a pesquisadora.

Outra originalidade da pesquisa brasileira foi o recrutamento, em 2008, de voluntários com idade mínima a partir de 35 anos, o que vem permitindo avaliar antecipadamente em que momento as doenças cardiovasculares e o processo aterosclerótico (obstrução do fluxo sanguíneo nas artérias carótidas por placas de gordura e cálcio) começam a se manifestar, relata a professora Isabela.

“As linhas de estudo que envolvem fatores de risco não clássicos para a doença cardiovascular em uma idade mais jovem têm sido nossas maiores fontes de produção científica. Nos projetos temáticos Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] associados ao estudo, por exemplo, o papel da função tireoidiana na determinação das doenças cardiovasculares gerou 30 artigos já publicados, além de vários outros submetidos”, diz.

O artigo Gender, race and socioeconomic influence on diagnosis and treatment of thyroid disorders in the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (Elsa-Brasil), cujo um dos autores é a professora Isabela, relata que gênero, raça e fatores socioeconômicos influenciam no diagnóstico e tratamento da doença.

Neste estudo, se verificou que o diagnóstico e o tratamento do hipotireoidismo clínico é menor entre os homens, entre os participantes de menor escolaridade e renda e entre os pretos, quando comparados aos pardos e brancos. “O resultado mostra que mesmo em uma amostra de pessoas que têm mais acesso aos serviços de saúde, no caso dos voluntários do Elsa, que são funcionários públicos, a desigualdade social influencia no diagnóstico e tratamento do hipotireodismo”, diz.

Este mesmo estudo também indicou que o hipotireoidismo clínico e subclínico (quando há um aumento do hormônio tireotrófico, mas a tiroxina-livre ainda está em níveis normais) são mais frequentes nos brancos e o hipertireoidismo clínico e subclínico (quando há uma diminuição do hormônio tireotrófico, mas a tiroxina-livre está em níveis normais) são mais frequentes nos pretos.

Outra informação relevante publicada em artigo científico foi que a levotiroxina, um hormônio sintético usado no tratamento de reposição hormonal quando há déficit de produção de tiroxina pela glândula tireoide, vem sendo largamente utilizada no Brasil por mulheres de classes sociais mais elevadas, possivelmente com prescrição off label. Ou seja, o medicamento vem sendo utilizado para perda de peso, tratamento da depressão e outros fins, o que, segundo a pesquisadora, não é diferente dos resultados encontrados em estudos de outros países.

Mais informações: e-mail isabensenor@gmail.com, com a professora Isabela M. Benseñor

Por: Ivanir Ferreira

FONTE: Jornal da USP

Insuficiência renal crônica pode ser identificada a partir de exames de rotina

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O crescente número de casos de insuficiência renal crônica tem alertado para os cuidados e prevenções com a saúde nefrológica. A doença, que já é considerada uma epidemia do milênio, acomete um em cada dez indivíduos e encontra entre as principais causas as doenças crônicas, como diabete e hipertensão, além do sedentarismo, obesidade e a dieta mal orientada.

Pela ausência de sintomas bem delimitados, a doença requer um acompanhamento constante, com exames de níveis de creatinina no sangue e a observação da presença de proteína na urina. Hugo Abensur, membro do Serviço de Hemodiálise do Hospital das Clínicas da FMUSP, diz que o que é possível identificar é um certo inchaço na região do rosto, um pouco de enjoo e uma leve anemia. Mas comenta que “a doença pode caminhar lentamente”, sem sintomas muito expressivos, o que explica o fato de alguns pacientes já chegarem aos hospitais em estágios avançados da insuficiência renal.

O marcador da doença renal é baseado na produção de creatinina no sangue. A depender do nível dessa substância na corrente sanguínea do paciente, a hemodiálise passa a ser necessária. Só que, em alguns casos, o transplante de rim pode ser uma solução mais imediata, não sendo preciso a “diálise”. A principal questão que envolve o transplante é a compatibilidade do órgão do doador com o receptor. Por isso, Hugo Abensur destaca a importância do monitoramento dos grupos de risco, a fim de retardar a progressão da doença.

Possíveis alternativas

Só no País, “30 mil pessoas esperam por um transplante de rim” e “140 mil pacientes diários consomem 5% do orçamento em saúde”. Com esses dados, Abensur diz ser necessário diminuir a chegada de pacientes nos hospitais, com a possibilidade da sobrecarga das máquinas de hemodiálise e com o crescimento da fila para o transplante de rim.

Tratamento da insuficiência renal

O  tratamento é conservador e varia a partir da porcentagem da função renal: medicamentos, se for abaixo dos 10%, e o transplante direto, nos casos que excedem esse índice. Abensur finaliza chamando a atenção para a preocupação com os exames envolvendo a creatinina no sangue, assim como a glicose e o colesterol, a partir de exames anuais, a fim de prevenir essa doença que pode “trazer muitos transtornos no dia a dia”.

Texto: Redação
Arte: Rebeca Fonseca

FONTE: Jornal da USP

Morte encefálica: Entenda porque o atraso no diagnóstico reduz doações

Conhecimento médico sobre os protocolos de diagnóstico de morte encefálica precisa ser ampliado. Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto apontam que o conhecimento insatisfatório atrasa o diagnóstico e, consequentemente, reduz a identificação de possíveis doadores.

A rapidez e a aplicação correta do protocolo de diagnóstico de morte encefálica são aspectos fundamentais para a identificação de possíveis doadores de órgãos e tecidos. Entretanto, pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP apontam que o conhecimento da comunidade médica é mediano em relação aos critérios de diagnóstico de morte encefálica definidos pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

Desempenho Médico

O desempenho foi avaliado a partir da aplicação de um questionário com 12 questões específicas sobre o protocolo de morte encefálica e doação de órgãos do CFM, com a participação de 360 médicos de todas as regiões do Brasil. Além disso, eles preencheram informações relacionadas aos dados sociodemográficos, formação médica e informações profissionais, como: tempo de experiência na UTI e segurança para explicar à família sobre o diagnóstico.

“Os participantes tiveram um desempenho insatisfatório, com uma media de cinco acertos em uma escala de 0 a 10. O conhecimento baixo foi visto mesmo em profissionais que têm entre seis e dez anos de formação, são intensivistas, participaram de cursos de capacitação, trabalham em Unidade Terapia Intensiva (UTI) e que realizaram mais de dez diagnósticos de morte encefálica”, revela Tauana Fernandes Vasconcelos, que é enfermeira, mestra pela FMRP e primeira autora do estudo Assessment of physicians’ knowledge about brain death and organ donation and associated factors publicado na Medicine.

A preocupação dos pesquisadores em relação a esse baixo desempenho está diretamente relacionada à identificação de possíveis doadores de órgãos. “Quando o médico tem um conhecimento insatisfatório, ele vai demorar para diagnosticar pacientes com morte encefálica. É importante ressaltar que não existe possibilidade de doar órgãos sem o cumprimento dos protocolos exigidos para comprovação de morte encefálica. Ou seja, se as diretrizes não forem aplicadas, perdemos a chance de ajudar outras famílias com a doação”, explica Maria Auxiliadora Martins, que é médica, professora da FMRP e orientadora do estudo.

Tauana ainda ressalta que é necessário realizar mais estudos sobre a temática e promover cursos para o treinamento desses profissionais, porque se trata de um diagnóstico muito necessário para doação de órgãos e concretização dos transplantes. “Nós identificamos que o conhecimento é insatisfatório, consequentemente terá uma baixa identificação de possíveis doadores.”

Em 2019, o Brasil apresentou 11.400 notificações de potenciais doadores, mas pouco mais de 3.200 tiveram seus órgãos e tecidos transplantados, aponta o relatório da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Entre os possíveis doadores estão aqueles que tiveram morte encefálica, que podem salvar até oito vidas com o transplante de coração, pulmão, fígado, rins, pâncreas, córneas, intestino, pele, ossos e válvulas cardíacas.

Como é feito o diagnóstico da morte encefálica

“O conceito de morte vem sendo discutido e modificado ao longo do tempo, não sendo reconhecido como morte apenas quando o indivíduo evolui para a parada cardíaca, mas também quando há perda de atividade no tronco e córtex cerebral por causa conhecida e irreversível. Ou seja, é uma situação onde o cérebro não volta a funcionar novamente”, explica a professora Maria Auxiliadora.

Atualmente, o diagnóstico de morte encefálica segue critérios definidos pela resolução nº 2.173, de 2017, do CFM, como: realização do procedimento em todos os pacientes em estado de inconsciência permanente, com lesão encefálica de causa conhecida e irreversível, ausência de fatores tratáveis que confundiriam o diagnóstico, tratamento e observação no hospital por pelo menos seis horas, entre outros.

Para Maria Auxiliadora, o protocolo para diagnóstico é minucioso e os médicos precisam estar atualizados para que o processo seja rápido e correto. “Realizamos provas clínicas e um exame complementar para que a gente tenha certeza que há morte encefálica e, por isso, a educação continuada e campanhas de esclarecimento são pontos importantes para melhorar o conhecimento dos profissionais e aumentar as taxas de doação de órgãos”, ressalta.

Além de Maria Auxiliadora e Tauana, o estudo conta com a autoria de Mayra Gonçalves Menegueti, Carlos Alexandre Curylofo Corsi, Jéssyca Michelon-Barbosa, Lucas Sato, Anibal Basile-Filho, Christiane Becari e Rosana Aparecida Spadoti Dantas, todos da USP. Maria Auxiliadora ressalta ainda que entre as principais colaborações está a professora Mayra Gonçalves Menegueti, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP, “que auxiliou no desenvolvimento dos instrumentos metodológicos corretos que permitiram que os resultados fossem concluídos com qualidade”. O estudo pode ser acessado na íntegra no link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36197182/

Mais informações: tauanavascon@gmail.com e mamartins@fmrp.usp.br

Texto: Giovanna Grepi
Arte: Rebeca Fonseca

FONTE: Jornal da USP

Câncer de tireoide em mulheres e a taxa de mortalidade

Renata Lorencetti informa que “65% da população pode ter câncer de tireoide, 90% deles são benignos e cerca de 3% a 4% são malignos“ e estes podem ser tratados com cirurgia.

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O câncer de tireoide é um câncer mais silencioso, já que não dá muitos sinais. Mas, mesmo assim, com alguns sintomas é possível identificá-lo.

O surgimento de nódulos na região do pescoço, sensação de aperto na área do colarinho, dificuldade de deglutir e rouquidão persistente podem indicar um problema oculto na tireoide, sendo este também a hipo ou hiperfunção da glândula: “São sinais que indicam que a gente tem que ser avaliado por um especialista para tentar chegar ao diagnóstico”, enfatiza Renata Lorencetti, médica cirurgiã de Cabeça e Pescoço do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

De ac0rdo com ela, “65% da população pode ter nódulos, 90% deles são benignos e cerca de 3% a 4% são malignos“, analisa a médica. Ela também comenta que essa alta porcentagem ocorre por conta da maior realização de exames de ultrassom, os quais são capazes de identificar esses inchaços.

Tratamento ouro do Câncer de tireoide

“O tratamento ouro desses tumores é a cirurgia. Em algumas situações, a gente precisa complementar com a radioiodoterapia”, pontua Renata. O câncer de tireoide tem uma mortalidade muito baixa e, desde que o tratamento seja bem-feito e no tempo certo, ele é muito eficaz, conforme a médica.

A maioria dos tumores benignos não tem necessidade de cirurgia, apenas em casos muito específicos e, para isso, é preciso analisar cuidadosamente cada diagnóstico.

A radioterapia e a quimioterapia comuns não costumam ser usadas, já que não funcionam tão bem com esse tipo de câncer, porém, podem ser cogitadas em alguns casos. “A imunoterapia também não é uma escolha de tratamento de primeira linha, apenas para casos bem mais avançados”, completa Renata. Assim, esses métodos não substituem a cirurgia.

Considerações 

O câncer de tireoide é três vezes mais comum em mulheres de 22 a 55 anos. Mas todos devem estar atentos aos sintomas, sobretudo aqueles que fizeram radioterapia na infância, foram expostos à radiação, têm disfunção tireoidiana e histórico familiar de câncer de tireoide. O ultrassom deve ser feito somente com indicação médica, segundo o protocolo.

O repouso do pós-operatório da cirurgia é de sete a dez dias e, quando precisa fazer a iodoterapia, ela é de dose única, o paciente fica internado de um a dois dias, e é usada para eliminar o resto de células tumorais. A pessoa deve tomar todos os dias um comprimido de hormônio tireoidiano e fazer o acompanhamento, pelo menos, duas vezes por ano.

FONTE: Jornal da USP

 

Se válido, testamento vital não pode ser contestado pela família

O testamento vital procura cumprir os desejos das pessoas, quando estas estão com doenças terminais e não têm mais condições de saúde. Criado nos Estados Unidos na década de 1960, só chegou ao Brasil em 2012. Levantamento do Colégio Notarial do Brasil mostra que cresceu o número de solicitações de testamentos vitais em nove anos. As DAV, como são conhecidas as Diretivas Antecipadas de Vontade, apresentaram um aumento de 235% em todo o País. São Paulo foi a cidade com mais solicitações, passando de 62 lavramentos em 2012 para 586 em 2021, uma alta de 845%.

José Luiz Gavião de Almeida, professor de Direito Civil da Faculdade de Direito da USP, explica que “esse instrumento foi criado para que as pessoas pudessem adoecer, decidir a respeito de uma morte sem dor, evitando aqueles tratamentos recessivos que às vezes acabam levando à pessoa um sofrimento muito grande”. No Brasil, não existe nenhuma lei tratando do Testamento Vital, então ele é uma espécie das chamadas Tratativas Antecipativas de Vontade, nas quais a pessoa trata do que ela quer que seja feito amanhã. Essas tratativas podem ser um Testamento Vital sobre o qual normalmente a pessoa vai decidir o tratamento da sua saúde ou um mandato duradouro em que a pessoa nomeia alguém para decidir por ela quando não tiver mais condições.

Decisão antes da morte

Segundo o professor Gavião, “teoricamente” esses dois documentos são  inaplicáveis no Brasil. “O testamento é um instrumento pelo qual eu decido alguma coisa e a validade dele é para depois da minha morte. O testamento vital é quando é decidido alguma coisa antes da minha morte. Em um momento em que eu não tenho mais consciência para decidir, mas antes da morte. O testamento é para depois da minha morte. O mandato duradouro também não seria difícil de ser aplicado no Brasil, porque também é um instrumento em que eu nomeio alguém para decidir por mim, mas ele só vale enquanto eu esteja vivo ou em plena consciência. No momento em que eu perca a minha capacidade, a minha consciência de decidir, o mandato também desaparece.” Por não ser proibido, algumas pessoas acreditam que tanto o testamento vital quanto o mandato duradouro têm validade no País. O professor Gavião explica que, no Direito brasileiro, quando não existe uma obrigatoriedade escrita na lei de uma determinada forma, qualquer forma pode ser utilizada para o ato. Assim, se isso fosse aplicado ao testamento vital, um escrito público, particular e até oral serviria. Um escrito público seria muito mais seguro, em termos de poder ser utilizado, porque um instrumento particular como o papel poderia ser perdido. Então, ele é mais seguro do que qualquer outro porque ficaria no cartório e poderia ser acessado a qualquer momento.

Revogação a qualquer momento

O testamento vital não tem prazo de validade, mas pode ser revogado a qualquer instante. Assim, a própria pessoa pode colocar uma cláusula informando que ele é irrevogável. Como não existe na lei uma determinação de como ele deve ser feito, ele é livre. Ele pode ser feito de forma oral ou escrita em casa, em um papel onde a pessoa coloca suas vontades, então não há a necessidade de ser produzido por um  advogado.

Não existe nenhuma lei a respeito do assunto, mas há a resolução n°1995/2012 do Conselho Federal de Medicina relacionada ao tema, como destaca o professor. “Ela não é lei, portanto não é obrigatória, mas ela determina aos médicos que cumpram essas diretivas antecipativas de vontade sob pena de descumprimento das regras do Conselho Federal de Medicina, mas são só regras de ordem profissional.” No caso dos familiares, se o testamento vital for reconhecido como válido, não é possível sua contestação. Ele só poderia ser contestado em relação à própria validade do ato. “A família poderia dizer que, quando ele foi feito, a pessoa já não estava, por exemplo, em plenas condições de entender o que estava fazendo. Aí então o ato vai ser invalidado”, explica o professor.

FONTE: Jornal da USP

Condições hormonais de atletas mulheres e as lesões no joelho

Lesões no joelho do Ligamento Cruzado Anterior é a causa mais comum de cirurgias no meio esportivo e afeta três vezes mais as mulheres que os homens.

Causa mais comum de cirurgias em atletas, a lesão do Ligamento Cruzado Anterior (LCA), que ocorre nos joelhos, afeta muito mais as mulheres que os homens; o risco dessas lesões chega a ser três vezes maior no sexo feminino, segundo o professor Fabricio Fogagnolo, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e especialista em cirurgia do joelho e trauma ortopédico. “Entre os esportes em que o LCA é mais frequente estão futebol, basquete, vôlei, handebol e lutas”, afirma o professor.

Segundo Bruno Luiz de Souza Bedo, educador físico e especialista em reabilitação e desempenho funcional pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o sexo feminino é mais suscetível à lesão que os homens pelas características anatômicas, as diferenças na mecânica dos movimentos, no controle muscular e também nas condições hormonais. “O espaço intercondilar, conhecido como fossa intercondilar e onde fica o LCA, é classificado quanto ao formato cônico, circular e retangular. O que se vê nas lesões sugere que a largura da base da fossa e a largura do côndilo lateral, que é uma das duas projeções na extremidade inferior do fêmur, seriam fatores de risco importantes porque este espaço é menor nas mulheres em relação aos homens e, sendo mais estreito, limita a mobilidade de articulação durante os movimentos de torção, o que favorece o impacto entre o ligamento e a estrutura óssea ao redor do joelho, aumentando o estresse imposto no ligamento”, adianta.

Outro fator que faz com que as mulheres sejam mais suscetíveis à lesão do LCA é que o quadril no corpo feminino é mais largo que na estrutura óssea do corpo masculino. “Isso afeta o alinhamento dos joelhos e toda a musculatura do quadril e do próprio joelho, o que aumenta a carga imposta na articulação”, afirma o educador físico.

Quanto aos fatores hormonais, o ciclo menstrual merece ser destacado. Os hormônios que regulam o ciclo não alteram apenas o aparelho reprodutor, mas também diversas estruturas do corpo. O ciclo hormonal afeta o ligamento cruzado anterior, principalmente na fase pré-ovulatória. “Ou seja, a mulher, a atleta que está realizando uma prática esportiva tem o maior risco de se lesionar durante a primeira metade do ciclo menstrual”, ressalta Bedo.

Ainda segundo Bedo, existem também fatores neuromusculares. Um dos principais fatores, que aumentam a incidência de lesões em mulheres quando comparada aos homens é o desgaste ou a resistência à fadiga. “As mulheres sofrem mais com a fadiga muscular e isso faz com que seja mais comum a existência do valgo, quando o joelho está desalinhado e voltado para dentro e se torna um dos principais mecanismos de lesão do ligamento cruzado anterior”.

As lesões no joelho

Fogagnolo afirma que o ligamento cruzado anterior é muito importante, principalmente para a prática esportiva. O LCA “fica no centro do joelho e limita o deslocamento anterior da tíbia em relação ao fêmur, impedindo que a tíbia vá para a frente. Esse ligamento é importante restritor também dos movimentos rotacionais da tíbia em relação ao fêmur, particularmente da rotação interna da região mais lateral da tíbia em relação ao fêmur”, explica.

Nos esportes que envolvem mudanças rápidas de direção como os dribles, comuns no futebol, no handebol e no basquete, os atletas ficam mais expostos à lesão do LCA. “A lesão acontece justamente com esses movimentos mais súbitos e a ocorrência se dá 70% no pé de apoio, quando o atleta vai fazer uma mudança rápida de direção. Mas o movimento mais comum, sem dúvida, é o desvio do joelho para dentro, quando os dois joelhos apontam um para o outro, combinado com o movimento de rotação da tíbia”, informa o professor Fogagnolo, assegurando ser mais comum a lesão ocorrer quando o atleta está sozinho, contrariando o que muitos acreditam, que a lesão no LCA é resultado de colisão com o oponente.

Cirurgia e fortalecimento muscular

A recuperação da lesão nas mulheres e nos homens é praticamente a mesma. “O retorno às atividades esportivas se dá por volta de oito a dez meses após a cirurgia”, garante Fogagnolo. “Nos esportes que envolvem mudanças rápidas de direção e que são extremamente competitivos, a recomendação é fazer um protocolo de fisioterapia bastante adequado, com treinamento de fortalecimento para um retorno mais seguro às atividades”, alerta.

Saber se prevenir é fundamental. Fogagnolo recomenda que os atletas profissionais ou amadores procurem um ortopedista ou fisioterapeuta para o fortalecimento adequado da musculatura. Já os fatores de risco para a lesão, segundo Bedo, se dividem em intrínsecos e extrínsecos. Nos fatores intrínsecos, os riscos dependem inteiramente do atleta e seus desequilíbrios musculares, restrição articular, por exemplo. Já nos fatores extrínsecos, os riscos aparecem na carga de treino, no tipo de grama ou de quadra, no tipo de tênis ou chuteira que o atleta usa.

De toda forma, os números das lesões em mulheres assustam. Para se ter uma ideia, durante a preparação para a Copa do Mundo de Futebol Feminino, na França, em 2019, nada menos do que 17 das 39 jogadoras da seleção feminina do Brasil já haviam sofrido esse tipo de lesão. E quatro atletas já tinham se lesionado, inclusive, nos dois joelhos.

A maior jogadora brasileira de todos os tempos, Marta, teve a lesão no joelho esquerdo aos 36 anos, no fim de março deste ano, ficando de fora da Copa América. Outra atleta, Catarina Macario, brasileira naturalizada norte-americana, sofreu a mesma lesão em junho. A alemã Dzsenifer Marozsán fez a cirurgia em maio e a espanhola Alexia Putellas sofreu a lesão em julho, poucos dias antes do início da Eurocopa.

Por Rubens Avelar

FONTE: Jornal da USP

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Acidente vascular cerebral: Quais os benefícios da reabilitação?

Artigo publicado na “Revista de Medicina” mostra que a reabilitação e diagnóstico precoces após acidente vascular cerebral podem aumentar autonomia dos pacientes no autocuidado e na realização de atividades diárias.

Margareth Artur, da Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais da USP

Quais as perspectivas de recuperação e de reabilitação, e quais são as sequelas, leves ou graves, de quem sofreu um acidente vascular cerebral (AVC)? Esse foi o tema de uma pesquisa realizada com 64 pessoas de ambos os sexos que sofreram AVC e apresentaram redução de movimentos corporais, problemas relacionados à fala, dores e incontinência urinária. Os resultados foram publicados no artigo Índice de independência funcional de pacientes pós-acidente vascular cerebral submetidos a um programa de reabilitação multiprofissional disponível na Revista de Medicina.

Os pacientes participaram de um programa de reabilitação multiprofissional em um hospital público de Curitiba com assistentes sociais, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, neurologistas, psicólogos e nutricionistas. Ao final, após análise do nível de independência funcional de cada um deles, verificou-se um “potencial de resgate na autonomia e qualidade de vida”.

O estudo comprovou os benefícios do tratamento, que propõe uma recuperação da “independência funcional em pacientes pós-acidente vascular cerebral de artéria cerebral média”. Os autores dizem que “a participação no programa refletiu em ganho de autonomia no autocuidado e na realização de atividades diárias pelos pacientes”.

O AVC é uma alteração súbita do fluxo sanguíneo cerebral, que priva os neurônios de receber oxigênio e nutrientes essenciais de forma adequada. Em alguns minutos, as células do cérebro acometido começam a morrer e, se não tratado adequadamente, o dano se torna irreversível. É uma doença que atinge mais os homens e é uma das principais causas de morte, incapacitação e internações em todo o mundo.

Existem dois tipos de AVC: o isquêmico, quando há o bloqueio de uma artéria, impedindo que o sangue chegue até o cérebro; e o hemorrágico, que ocorre quando há ruptura de um vaso intracraniano. Hipertensão arterial, obesidade, consumo de cigarros, o diabetes mellitus (aumento de glicose no sangue), a anemia falciforme (hereditária), falta de atividades físicas e as comorbidades diversas são apontados como as principais causas da doença. Diante do perigo de óbitos pela doença ou sequelas de incapacidade, um programa específico de tratamento de reabilitação é fundamental.

A incapacidade, como nos informam os autores, é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como resultado da “interação dinâmica e complexa” entre condição de saúde, fatores pessoais e ambientais. No intuito de se criar um programa de tratamento eficaz de reabilitação para pacientes que sobreviveram ao AVC, é imprescindível a formação de uma equipe multidisciplinar hospitalar, sempre visando à independência do paciente e de seus familiares, pois não se pode ignorar as sequelas da doença nos diversos âmbitos da vida.

Os autores relatam, ainda, que o Ministério da Saúde orienta tratamento prematuro de reabilitação no pós-AVC em centros especializados, recurso que “pode reduzir as incapacidades e promover retorno precoce às  suas atividades”, proporcionando melhora significativa na capacidade de independência. Ressalta-se, na pesquisa, que os métodos e critérios de “reabilitação multiprofissional” não obtiveram sucesso total.

O artigo enfatiza, também, a importância de novas pesquisas sobre o tema, com o objetivo de pôr em pauta os resultados dos tratamentos e avaliar em qual medida a prática de atividade física, a obesidade e os fatores sociais podem influenciar na recuperação dos pacientes.

Outra recomendação é a prevenção, o diagnóstico precoce, o procedimento e os recursos de cura oferecidos no âmbito hospitalar.

Artigo

GENTILINI, G. L.; SANTA, L. N. de; VEDOVATTO, M. B.; HIRAI, P.; KLAUMANN, V. C.; PURIM, K. S. M.; NISIHARA, R. M. Índice de independência funcional de pacientes pós-acidente vascular cerebral submetidos a um programa de reabilitação multiprofissional. Revista de Medicina, São Paulo, v. 101, n. 4, e-174732, 2022. ISSN: 1679-9836. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v101i4e-174732. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revistadc/article/view/174732. Acesso em: 30 ago. 2022.

FONTE: Jornal da USP

Como a tecnologia pode ajudar na experiência do paciente

Buscar aprimoramentos e solucionar problemas nos serviços de saúde promovem uma melhora não apenas para o paciente, mas também para os profissionais de saúde.

As tecnologias como a internet das coisas, 5G, inteligência artificial e telecomunicações estão mudando o mundo. Os serviços prestados à sociedade, hoje, precisam ser pensados nesses termos, que podem ser usados a favor de todos. O design de sites e interfaces, por exemplo, precisam ser pensados a partir da experiência do usuário e o que pode ser feito para melhorar os serviços prestados a eles.

Pensando nisso, o professor Clovis Alvarenga Netto, do Departamento de Engenharia de Produção e criador do Laboratório de Estudos em Design, Serviços e Sustentabilidade da Escola Politécnica (Poli) da USP, pensa em abordagens focadas em resultados e processos que visem a atender o cliente para resolver suas necessidades. Seu laboratório tem como principal objetivo idealizar tecnologias e soluções voltadas aos serviços de saúde.

Para melhorar a experiência do usuário em todas as etapas do atendimento, desde os exames iniciais até o diagnóstico final, é necessário “entender o ponto de vista do profissional da saúde, que pode ser médico, biomédico, da farmácia, bioquímica, psicologia, odontologia, assim por diante. É preciso entender do ponto de vista deles o que é estar na pele deles”, diz o professor.

Acima de tudo, é imprescindível pensar nas pessoas, que são clientes e pacientes. O desafio da inovação consiste em trazer esses profissionais para falar o que é estar na sua pele e quais são os problemas e dificuldades, para que possam ser melhorados e solucionados. “Quais são os problemas a serem resolvidos? Quais são as dificuldades que  têm? Quais são os processos, que até já existem, mas que podem ser melhorados? E até aqueles que ainda não estão desenvolvidos ou disponíveis aqui na nossa sociedade, mas que, se fossem desenvolvidos, fariam uma grande diferença, melhorando as dores e dificuldades dos pacientes”, pontua.

A jornada do paciente

Clovis Alvarenga aponta que o primeiro desafio no momento são os fatores críticos de sucesso na prestação de serviços em saúde. A jornada do usuário consiste em muita coisa além do contato presencial com o profissional da saúde: marcar a consulta, o deslocamento, atendimento, monitoramento da saúde, entre outros.

Telemedicina – Foto: Freepik

Dependendo da modalidade, é possível fazer parte dessas etapas previamente à consulta, como exames, pré-diagnóstico e anamnese, o que ganha tempo na hora do atendimento. Quando o paciente já vai ao atendimento com exames e material colhido e com informações sobre qual é o seu problema, a consulta fica mais produtiva e o profissional de saúde consegue atender mais pessoas. Como explica o professor, a jornada do cliente é mais abrangente que a consulta e pode ser trabalhada a favor do paciente.

Muita coisa que antes não era permitido fazer, por conta da pandemia, agora é normalizado. Um exemplo disso é a telemedicina: “A observação do comportamento do paciente, o retorno sobre as dificuldades ou dores que o paciente tem, a anamnese e o histórico do paciente, podem ser feitos a distância”, ressalta. A tecnologia ajuda em todo o processo e o paciente continua a ser bem atendido inclusive a distância, principalmente as pessoas que estão fora de grandes centros mas ainda têm necessidades específicas. Porém, lembra que “a tecnologia permite bastantes coisas, mas não está substituindo o contato presencial com o profissional da saúde”.

Desafios da inovação

“Cria-se um ambiente em que o pessoal mais focado em tecnologia pode dar contribuição relevante, gente do lado da saúde que vai dizer em alguns atendimentos ou modalidades o que é possível fazer e o que não é possível fazer, e o profissional da saúde propriamente dito, que vai dizer as dificuldades e dores. Tem que estar desenvolvendo o trabalho em equipe, se colocando na pele do outro profissional e entendendo o ponto de vista, também de clientes, de quais são as dificuldades que eles têm”, esclarece o professor.

O fomento dentro das universidades, com novas ideias sobre inovação e tecnologia, é de extrema importância. O professor ressalta que o envolvimento dos alunos em seu laboratório é excelente e que, além do trabalho em equipe, há um trabalho conjunto entre alunos da engenharia e de diversas áreas da saúde, incluindo profissionais já formados e atuantes.

O ponto principal é desenvolver empatia e entender o ponto de vista do profissional de saúde e quais são suas necessidades. “Equipes de alunos estão procurando soluções mais adequadas para problemas que eles têm identificado na fala dos profissionais da saúde”, explica o engenheiro.

FONTE: Jornal da USP

Agrotóxicos e os problemas de saúde nos agricultores

Intoxicação pelo uso desprotegido dos produtos foi associada a casos de dor de cabeça, dermatite, surdez e depressão. Problema envolve omissão do poder público na fiscalização, falta de orientação e constante estímulo ao uso de agrotóxicos nos locais de comércio de insumos agrícolas frequentados pelos agricultores.

Uma pesquisa realizada na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP investigou os efeitos do uso de agrotóxicos por agricultores familiares nos municípios de Pimenta e Capitólio, em Minas Gerais. A partir da medição de um indicador presente no sangue que aponta para intoxicação e o levantamento de queixas de saúde junto aos trabalhadores, os resultados sugerem uma relação entre a contaminação pelos agentes químicos e a apresentação de sintomas como dor de cabeça, irritação nos olhos, insônia e nervosismo.

Em sua dissertação de mestrado, a pesquisadora Nicole Blanco Bernardes, orientada pela professora Maria Helena Palucci Marziale, realizou o estudo com 140 participantes. Foram avaliados 80 trabalhadores atuantes na agricultura familiar, expostos diretamente a agrotóxicos, e 60 usuários do Programa de Saúde da Família (PSF) das duas cidades, mas que não estiveram expostos aos produtos químicos, para comparação. Os participantes também responderam a um questionário utilizado na avaliação junto aos resultados dos exames de sangue.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Pimenta e Capitólio têm população estimada em 8.715 e 8.693 habitantes, respectivamente. Em entrevista ao Jornal da USP, Nicole conta que o que chamou a atenção para os municípios foi um índice expressivo de suicídios e a procura por tratamentos oncológicos dos munícipes em outras cidades mineiras. Apesar de não haver nenhuma comprovação e, mais que isso, essa relação ser muito difícil de estabelecer, a pesquisadora relata que as prefeituras já investigavam o número de casos e consideravam a possibilidade do contato direto com agrotóxicos entre os trabalhadores das lavouras ser um dos fatores para o problema. Dentre os sintomas descritos pelos entrevistados, a dor de cabeça foi o mais presente no grupo (33,8%), seguida por queixas de irritabilidade ou nervosismo (21,3%) e suor intenso (15%).

Os resultados mostraram que quase metade dos trabalhadores rurais que participaram da pesquisa (42,5%) relataram algum sintoma de intoxicação. No entanto, somente uma pequena parcela deles (6,3%) associou os sintomas a ter tido algum tipo de intoxicação por agrotóxico, indicando que há desconhecimento sobre o risco dos produtos, principalmente quando equipamentos de proteção não são corretamente utilizados.

Intoxicações crônicas por agrotóxicos

Esses dados também caracterizam um dos problemas recorrentes apontados pelo Protocolo de Avaliação das Intoxicações Crônicas por Agrotóxicos publicado em 2013 pela Secretaria de Estado da Saúde do Paraná: a subnotificação, ou seja, quando acontecem casos de intoxicação, mas eles não são reconhecidos como tal. Um dos motivos apontados por esse documento é a falta de instrumentos clínicos adequados para o diagnóstico. Nesse sentido, a investigação conduzida por Nicole Blanco Bernardes atesta essa realidade e assinala que a avaliação de saúde periódica dos trabalhadores rurais ajuda a monitorar a exposição excessiva aos agrotóxicos.

Os participantes do estudo são agricultores familiares que trabalham com diversos tipos de lavoura, como tomate e pimenta, e estão expostos a agrotóxicos da classe organofosforados.

“É difícil fazer um diagnóstico da situação pois os órgãos fiscalizadores são um pouco precários e não temos uma notificação precisa do número de infecções. A grande maioria das intoxicações é crônica, de forma que os sintomas surgem depois de muito tempo de exposição, a não ser em casos de acidentes.”

A pesquisa ainda destaca a necessidade de mais informações a respeito do uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) para amenizar o impacto dos agrotóxicos na saúde dos trabalhadores rurais. Segundo os dados coletados, somente uma parcela deles utilizava equipamentos como luvas (58,8%), máscara (55%) e óculos de proteção (26,3%). Além disso, apenas 7,5% lavavam as roupas utilizadas na lavoura separadas das peças de familiares, mesmo que estes não tivessem contato direto com os produtos químicos.

Incentivo ao uso

Apesar de sua importância, há uma série de barreiras para o uso dos equipamentos de proteção. A professora Marilise Mesquita, da Faculdade de Saúde Coletiva do Rio Grande do Sul/UFRGS e organizadora do livro Saúde coletiva, desenvolvimento e (in)sustentabilidade no rural, detalha:

“Existe uma série de fatores que afastam o uso de EPI na região Sul. Um deles é o clima. Ninguém consegue usar, durante horas, macacão, botas, óculos e luvas num calor de 40 graus Celsius. Os equipamentos de proteção não foram feitos para o clima tropical. Além disso, os agrotóxicos têm um rótulo com uma linguagem extremamente técnica, inacessível para pessoas que não terminaram o ensino fundamental, como é o caso de 70% dos trabalhadores da região. Eles não têm ideia do que estão usando e quais os perigos à saúde.”

Quando questionada sobre a atuação da fiscalização, Marilise aponta as mesmas condições apresentadas na dissertação de Nicole Blanco Bernardes, isto é, uma fiscalização frouxa em contraposição a um constante estímulo ao uso de agrotóxicos nos locais de comércio de insumos agrícolas frequentados pelos agricultores.

Essa constatação trazida pelas duas pesquisadoras sobre omissão do poder público na fiscalização coloca em xeque um dos pontos fundamentais das Diretrizes Nacionais Para Vigilância em Saúde de Populações Expostas aos Agrotóxicos publicadas pelo Ministério da Saúde em 2017. Parte dos objetivos definidos pelo documento depende diretamente da atuação dos profissionais da saúde e da vigilância sanitária no acompanhamento sistemático dos trabalhadores como uma forma de gerar indicadores confiáveis do uso de agrotóxicos e construir políticas públicas de proteção à saúde efetivas para os trabalhadores rurais.

Como alternativa aos agrotóxicos, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) de Minas Gerais tem adotado iniciativas agroecológicas para fornecer alternativas aos agricultores, como a substituição do uso de agrotóxicos por adubos naturais.

*Ana Fukui é pós-doutoranda da FMUSP e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)

Mais informações: e-mail nicoleblanco100@yahoo.com, com Nicole Blanco Bernardes

Texto: Por Pedro Ferreira e Ana Fukui*
Arte: Ana Júlia Maciel

FONTE: Jornal da USP

Gripe do tomate, você já ouviu falar?

Uma doença que causa febre e dores no corpo acometeu pelo menos 100 crianças em dois Estados na Índia. Chamada de gripe do tomate, a moléstia não é nova e causa lesões redondas e avermelhadas na pele, que lembram tomates, por isso o nome.

A infectologista Juliana Framil, da equipe de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, tranquiliza, reforçando que ainda não existem casos da doença no Brasil. Detectada na Índia, que se manifesta por meio de lesões na pele que se assemelham ao tomate e que tem semelhanças com o sarampo e a varíola do macaco.

Porque o nome gripe do tomate?

O nome de gripe do tomate ou febre do tomate  nada tem a ver com o alimento, mas uma associação do fruto com o formato das bolhas que surgem no corpo, vermelhas, lembrando tomates.

Origem

A doença ainda é de origem desconhecida, por isso existem duas teorias sobre essa gripe: a primeira é de que as crianças que contraíram chikungunya ou dengue têm maior tendência à gripe do tomate;  a outra é de que é causada pela variante de um vírus que causa a doença “mão pé boca”, uma infecção viral altamente contagiosa na Índia.

Sintomas

Entre os sintomas estão a febre, dores no corpo e articulações, além de vesículas no corpo que se confundem com outras doenças como sarampo, por exemplo.

Tratamento da gripe do tomate

O tratamento é feito de forma a aliviar a dor e febre com o uso de analgésicos, além do isolamento por no mínimo sete dias para evitar a contaminação de outras pessoas. Na maioria das vezes, a doença é “autolimitada”, ou seja, se resolve sozinha, sem necessidade de medicamentos específicos.

De qualquer forma, vale a mesma orientação que tivemos em relação à covid-19, como lavar mãos e o uso de álcool para desinfecção de objetos e superfícies.

Por Sandra Capomaccio

FONTE: Jornal da USP