Estudo revela mecanismo que faz ácido úrico causar dano vascular

Experimentos laboratoriais mostraram alteração na proteína mais abundante do sangue que pode desencadear resposta inflamatória como a aterosclerose

O ácido úrico pode acionar gatilho para a inflamação vascular – Ilustração: brgfx/Freepik

Aalbumina, proteína mais abundante do sangue, pode desempenhar um papel ativo na inflamação vascular ao sofrer uma modificação ainda pouco explorada, conhecida como uratilação – modificações em proteínas causadas por produtos da oxidação do ácido úrico. Um novo estudo mostra, pela primeira vez, que a albumina uratilada ativa células do endotélio, que revestem a superfície interna dos vasos sanguíneos e linfáticos. Esse processo desencadeia respostas inflamatórias associadas às etapas iniciais da inflamação vascular.

O estudo foi realizado por cientistas do Centro de Processos Redox em Biomedicina (Cepid Redoxoma), liderados por Flavia Meotti, do Instituto de Química (IQ) da USP, e investigou como a albumina uratilada afeta diretamente células endoteliais vasculares humanas (HUVECs), buscando compreender sua contribuição para processos inflamatórios no sistema vascular. Os resultados foram publicados na revista Redox Biochemistry and Chemistry.

“A principal novidade do estudo é demonstrar o efeito que a uratilação da albumina pode causar no organismo, ao desencadear respostas inflamatórias”, afirma Railmara Pereira da Silva, primeira autora do artigo. “A modificação de uma proteína leva a um quadro inflamatório exacerbado, que pode se agravar em situações crônicas. Para nós, é muito importante revelar esses mecanismos moleculares para entender melhor dados clínicos futuros.” A pesquisadora realizou o trabalho durante seu pós-doutorado e atualmente integra o Centro de Espectrometria de Massas da Universidade de Ciências Aplicadas de Mannheim, na Alemanha.

Para Flavia Meotti, um dos avanços do trabalho é ir além da correlação clínica. “Quando detectamos aumento dos níveis de ácido úrico e de produtos da sua oxidação, isso informa que existe uma relação com determinada patologia, mas não permite inferir causalidade”, explica. Ao mostrar que a albumina modificada tem atividade pró-inflamatória, o estudo indica que essa alteração “não é apenas um evento simultâneo, mas pode estar envolvida diretamente no processo patológico”.

Embora a uratilação da albumina já tivesse sido descrita anteriormente, suas implicações biológicas ainda não haviam sido demonstradas. “O que este trabalho faz é justamente propor essa modificação em uma molécula para a qual as consequências funcionais nunca haviam sido exploradas”, acrescenta Flavia.

Alteração da estrutura

A albumina desempenha um papel essencial no transporte de diversas substâncias, incluindo metabólitos pouco solúveis em água, íons e compostos externos ao organismo, como medicamentos, além de contribuir para a manutenção do equilíbrio osmótico do plasma (com taxas iguais de entrada e saída de água). Ela é uma proteína altamente suscetível a modificações pós-traducionais, isto é, alterações que ocorrem após a síntese proteica e podem modificar sua estrutura e função.

No estudo, os pesquisadores produziram a albumina uratilada in vitro e demonstraram que a uratilação altera a estrutura da proteína. Em seguida, ao expor células endoteliais vasculares humanas à albumina uratilada, observaram aumento na adesão de monócitos em comparação com células não tratadas e maior expressão da molécula de adesão ICAM-1. Esses resultados indicam uma resposta inflamatória endotelial.

O aumento na adesão de monócitos foi acompanhado por maior liberação do fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), uma citocina pró-inflamatória importante na resposta imune e na inflamação sistêmica.

“Se a gente olhar toda a cadeia, o ácido úrico oxidado modifica a albumina; a albumina modificada ativa as células endoteliais; essas células passam a expressar moléculas de adesão que recrutam células inflamatórias; e, a partir desse recrutamento, ocorre a liberação de citocinas pró-inflamatórias. Como resultado, o organismo entra em um estado de inflamação”, explica Railmara.

A aterosclerose é uma das patologias associadas a esse tipo de inflamação vascular. O modelo experimental utilizado no estudo, baseado em células endoteliais humanas, reproduz os eventos iniciais que ocorrem na parede dos vasos sanguíneos, ajudando a compreender como alterações moleculares no endotélio podem contribuir para o início do processo aterosclerótico.

Segundo a pesquisadora, a formação dessas modificações não depende de níveis elevados de ácido úrico no plasma. Mesmo em concentrações fisiológicas, a presença de um processo inflamatório já é suficiente para que o urato, a forma ionizada do ácido úrico, seja oxidado e dê origem a essas alterações. “O fator limitante não é a quantidade de ácido úrico circulante, mas a presença de enzimas peroxidases capazes de promover sua oxidação, em especial a mieloperoxidase, principal enzima associada à inflamação”.

Leia o texto completo aqui.

Fonte: Jornal da USP
*Por Maria Celia Wider, da Assessoria de Comunicação do Cepid Redoxoma. Adaptado por Tabita Said

Acúmulo de ácido úrico é sugerido como marcador para doença arterial

O acúmulo de ácido úrico no organismo está associado a uma maior espessura das paredes das artérias carótidas, vasos sanguíneos que conduzem o sangue até o cérebro. O resultado foi observado em uma pesquisa da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) realizada com 4 mil participantes do Estudo Longitudinal da Saúde do Adulto (Elsa-Brasil), integrado pelo Hospital Universitário (HU) da USP. O estudo demonstra que o nível de ácido úrico pode ser um marcador da aterosclerose, doença em que há acúmulo de gordura nas artérias do corpo, em estágio inicial, quando não apresenta sintomas.

As conclusões do trabalho são descritas em artigo publicado na revista científica Current Problems in Cardiology. “A aterosclerose é uma condição em que existe depósito de gordura, como o colesterol e outros lipídeos, na parede das artérias”, disse ao Jornal da USP o médico Filipe Martins de Mello, que realizou a pesquisa. “Isso leva progressivamente à diminuição do caminho de passagem do sangue até os órgãos e tecidos.”

“As consequências mais temidas da aterosclerose são o infarto agudo do miocárdio (IAM) e o acidente vascular cerebral (AVC)”, ressalta o médico. “É difícil definir a prevalência de aterosclerose, mas estudos mostram que as doenças cardiovasculares, como o IAM e o AVC, seguem sendo a maior causa de mortalidade no Brasil.”

A pesquisa foi realizada com participantes do Elsa Brasil. “Ele é o maior estudo epidemiológico brasileiro dedicado a estudar os fatores associados a doenças crônicas não transmissíveis, como as doenças cardiovasculares”, descreve Mello. “O estudo é multicêntrico e inclui várias universidades brasileiras, dentre elas a USP, pesquisando entre os seus funcionários.”

Na USP, o Elsa Brasil está sediado no Hospital Universitário (HU). “O estudo procurou determinar se existe associação entre níveis mais elevados de ácido úrico com a presença de aterosclerose subclínica, quer dizer, ainda em uma fase precoce”, relata o médico.

Recepção do laboratório do Hospital Universitário (HU), na Cidade Universitária, em São Paulo, onde está localizado um dos centros do Elsa Brasil, maior estudo epidemiológico brasileiro dedicado a estudar os fatores associados a doenças crônicas não transmissíveis – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Realizamos, em mais de 4 mil pacientes, ultrassom de carótidas, artérias do pescoço que levam sangue ao cérebro. Medimos a espessura dessas artérias e também fizemos tomografia computadorizada de artérias coronárias, localizadas no coração, para pesquisar a presença de cálcio. Ambas as medidas são indicativas de aterosclerose subclínica.”

O pesquisador explica que o acúmulo de ácido úrico acontece devido a um desbalanço entre sua produção e excreção pelo organismo. “Dietas ricas em proteína animal, ou ingestão de bebidas alcóolicas, sobretudo a cerveja, ou adoçadas com frutose, levam a um aumento da produção de acido úrico. Doenças renais e o uso de algumas medicações podem levar à diminuição da excreção de ácido úrico”, afirma. “Sabe-se que o ácido úrico participa de diversas reações no organismo, e em algumas dessas situações pode haver um efeito lesivo na camada mais interna das artérias, provocando possível aceleração do processo de aterosclerose.”

“O trabalho demonstrou que níveis mais elevados de ácido úrico foram associados com maior espessura das paredes das artérias carótidas”, aponta o médico. “Isso indica associação do ácido úrico com a presença de aterosclerose subclínica em nossa população estudada.”

A pesquisa é relatada no artigo Serum Uric Acid Levels and Subclinical Atherosclerosis: Results From the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (Elsa-Brasil), em que Mello é o primeiro autor. O trabalho foi orientado pelo professor Ricardo Fuller, da FMUSP, e teve a colaboração de Isabela Bensenor, Paulo Lotufo, Marcio Bittencourt e Itamar Santos, do Elsa-Brasil no HU.

Mais informações: e-mail filipimello@hotmail.com, como Filipe Martins de Mello

FONTE: Jornal da USP

Gordura no fígado: ácido úrico e frutose altos podem desencadear esteatose hepática não alcoólica

A frutose vinda de produtos ultraprocessados aumenta o risco de associação entre o ácido úrico e a doença. A pesquisa, realizada na Faculdade de Medicina, usou dados do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto, uma coorte (acompanhamento de longo prazo) em andamento no País.

Pesquisa desenvolvida pela Faculdade de Medicina (FMUSP) mostrou que há uma associação importante entre o aumento dos níveis de ácido úrico sérico e a doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA). A DHGNA é causada pelo acúmulo progressivo de gordura no fígado e não pelo consumo excessivo de álcool. Nos últimos anos, evidências clínicas sugerem que o ácido úrico elevado frequentemente está associado ao desenvolvimento ou progressão da DHGNA. Altos índices de ácido úrico podem levar ao desenvolvimento de resistência à insulina (RI).

Outro dado importante trazido pelo estudo mostra que o consumo elevado de frutose – vinda de produtos ultraprocessados – pode aumentar o risco de associação entre o ácido úrico e a DHGNA, tanto para homens quanto para mulheres.

Os resultados integram a tese de doutorado da nutricionista Clara Freiberg, defendida em janeiro de 2021. A partir desses achados, a pesquisadora sugere que a investigação prática da função hepática deva fazer parte do protocolo dos exames de rotina.

Do total da amostra estudada (10.597 pessoas), a pesquisa encontrou uma prevalência de DHGNA de 38,5% (44,9% em homens e 34% em mulheres). Quando comparados a outros países, como Estados Unidos (34%), Índia (29%) e Coreia do Sul (26%), esse número parece bem elevado.

“Quando falamos de frutose estamos nos referindo àquela industrializada, presente em alimentos ultraprocessados, e não ao consumo da fruta propriamente dita”, esclarece Clara Freiberg, nutricionista autora do estudo.

A ingestão de frutose tem sido associada à progressão da doença devido ao seu potencial de aumentar os níveis de ácido úrico no sangue. Ela está presente em muitos produtos ultraprocessados na forma de xarope de milho enriquecido com frutose. Estudos estimam que a frutose tem sua absorção aumentada em quase 30% quando associada a soluções com esse tipo de carboidrato.

“Quando falamos de frutose estamos nos referindo àquela industrializada, presente em alimentos ultraprocessados, e não ao consumo da fruta propriamente dita”

Elsa-Brasil

Para realizar a pesquisa, a nutricionista utilizou os dados provenientes do Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil), uma coorte (acompanhamento de longo prazo) de servidores públicos de todo o Brasil, iniciada em 2008, e que conta com cerca 15 mil participantes, com idade entre 36 e 74 anos.

A amostra final para a pesquisa foi composta de 10.597 participantes (4.309 homens e 6.288 mulheres) que preencheram os critérios para diagnóstico de DHGNA (exames antropométricos, clínicos, bioquímicos e ultrassonografia, para avaliar a presença da doença).

Todos os participantes foram classificados em quintis dos níveis de ácido úrico sérico para a análise de todas as variáveis, sendo o primeiro quintil (Q1) referente aos valores mais baixos e o último quintil (Q5) aos valores mais elevados. Quintil é o termo usado para um conjunto de dados que é dividido em cinco partes iguais.

As análises mostraram que não houve diferença entre os quintis quanto à idade, etnia e renda. Participantes com maior nível de ácido úrico apresentaram menor nível de escolaridade e maior prevalência de IMC (índice de massa corporal, calculado pelo peso da pessoa dividido pela altura dela ao quadrado). Também apresentaram mais hipertensão, diabete, níveis de enzimas do fígado altos, eram inativos fisicamente e tinham esteatose hepática de leve a grave. Além disso, possuíam maior média de circunferência da cintura, de HOMA-IR (marcador de que avalia se o paciente tem resistência à insulina), de enzimas hepáticas, colesterol total, LDL e triglicerídeos.

A circunferência da cintura deve ser tratada com atenção porque a deposição de tecido adiposo, que é a gordura localizada no abdômen, está associada ao aumento da mortalidade geral. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a medida da cintura não ultrapasse 102 centímetros (cm) nos homens e 88 cm nas mulheres.

Quanto ao nível de ácido úrico, 965 mulheres (15%) e 1.122 homens (26%) eram hiperuricêmicos (níveis altos de ácido úrico). Verificou-se também que 45% dos homens e 34% das mulheres apresentaram algum nível de DHGNA. A prevalência da doença hepática tendeu a aumentar à medida que se elevavam os níveis de ácido úrico sérico.

Foto: Reprodução/Wikimedia Commons

 

Não houve diferenças de idade, etnia e renda entre os homens com alto consumo de frutose quando comparados aos participantes normouricêmicos (com níveis normais de ácido úrico) e hiperuricêmicos.

As mulheres hiperuricêmicas com maior consumo de frutose têm chance aumentada de apresentar DHGNA. Para os homens, a chance de hiperuricêmicos com consumo elevado de frutose apresentarem a doença foi maior do que aqueles com consumo adequado de frutose. “Com esses resultados, acho importante que a investigação prática da função hepática deva fazer parte do protocolo dos exames de rotina”, sugere Clara.

Ainda de acordo com a pesquisadora, os profissionais de saúde precisam ser mais claros ao orientar os pacientes sobre o controle do sal, do açúcar e da frutose, por exemplo. “As pessoas precisam entender que altos níveis de frutose nem sempre estão associados a um consumo excessivo de frutas.”

“Com esses resultados, acho importante que a investigação prática da função hepática deva fazer parte do protocolo dos exames de rotina”, sugere Clara. 

A doença

A doença hepática gordurosa não alcoólica vem se tornando uma das principais causas de doença hepática crônica no mundo. Sobrepeso, diabete, má nutrição, perda brusca de peso e sedentarismo estão entre os fatores de risco para o aparecimento da doença.

Há evidências de que a pressão alta, resistência à insulina, níveis elevados de colesterol e triglicérides estão diretamente associados ao excesso de gordura no fígado.

A patologia geralmente é assintomática e pode atingir um estágio avançado antes de ser diagnosticada. Desconforto no quadrante superior direito, fadiga e letargia foram relatados em até 50% dos pacientes mas, muitas vezes, a DHGNA é diagnosticada após a realização de exames de rotina.

Estudos mostram que, entre os pacientes com esteatose hepática simples, 12% a 40% desenvolverão NASH (forma mais avançada da doença hepática gordurosa não alcoólica) com fibrose precoce após oito a 13 anos. Desses, aproximadamente 15% desenvolverão cirrose e/ou evidência de descompensação hepática no mesmo período. Cerca de 7% das pessoas com cirrose compensada associada à DHGNA vão evoluir para câncer no fígado dentro de dez anos, enquanto 50% exigirão um transplante ou morrerão de causa relacionada ao fígado.

“Minha população estudada foi de adultos e idosos, mas seria importante avaliar o consumo de frutose em crianças e adolescentes”, explica. “A oferta de ultraprocessados é enorme para esse público. Na cantina da escola, por exemplo, refrigerante e água têm o mesmo preço.”

Foto: Reprodução/HCV-Trials

 

Jovens e adolescentes na mira

Clara contou ao Jornal da USP que o trabalho dela abriu várias outras possibilidades de estudo. “Minha população estudada foi de adultos e idosos, mas seria importante avaliar o consumo de frutose em crianças e adolescentes”, explica. “A oferta de ultraprocessados é enorme para esse público. Na cantina da escola, por exemplo, refrigerante e água têm o mesmo preço.”

Outro exemplo seria o acompanhamento mais próximo da dieta de alguns pacientes para verificar se há a mesma resposta clínica.

O Elsa-Brasil é um estudo iniciado em 2008, que investiga, na população brasileira, a incidência e fatores de risco para doenças crônicas, em particular, as cardiovasculares (acidente vascular cerebral, hipertensão, arteriosclerose, infarto, entre outras) e doenças associadas. São 15 mil participantes, de várias regiões do País, com idade entre 35 e 74 anos. No próximo mês de agosto eles serão novamente convocados para entrevistas e exames que identifiquem uma possível evolução dos fatores de risco para essas doenças – que são consideradas a principal causa de mortalidade no Brasil e no mundo.

Veja, neste link, outras pesquisas realizadas pelo Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (Elsa-Brasil).

Mais informações: e-mail clara.freiberg@gmail.com, com Clara Freiberg.

Texto: Fabiana Mariz
Arte: Adrielly Kilryann

FONTE: Jornal da USP