Saúde renal: quando é a hora de se preocupar?

O funcionamento do nosso corpo é resultado da soma de todas as reações e funções desempenhadas por cada um dos órgãos. Por isso, até falhas nas mais pequenas estruturas podem afetar nosso organismo de diversas maneiras.

Um exemplo disso é a insuficiência renal, que ocorre quando os rins perdem a capacidade de cumprir seu principal papel – filtrar o sangue -, levando a consequências graves.1 

Mas, assim como em outras condições, o corpo costuma dar sinais de que algo pode estar errado. Quer saber quais? Falaremos mais sobre o assunto a seguir! 

Qual a importância dos rins?

Antes de mais nada, é importante reforçar a importância dos rins, órgãos essenciais para o bom funcionamento do nosso organismo. São eles os responsáveis por funções como:2,

Como já havia sido dito, a falha nas funções acima podem levar à insuficiência renal, que pode ocorrer de forma repentina e passageira – insuficiência renal aguda – ou progressivamente, de forma irreversível – insuficiência renal crônica.3

Mas como identificar que algum desses problemas pode estar prestes a acontecer?

Veja também: Saúde dos rins: como está a sua?

Sinais de alerta para prestar atenção

No caso da insuficiência renal, os principais sinais que podem indicar algo de errado são:3

Vale lembrar que a insuficiência renal aguda nem sempre provoca sintomas, sendo comumente detectada por testes laboratoriais feitos por razões diversas. Por isso, é importante estar em dia com a saúde de seus rins.

Como cuidar da saúde renal?

Quando falamos em saúde renal, é importante ter em mente que algumas condições podem agir como fator de risco, como diabetes e hipertensão1. Nesses casos, o primeiro passo é seguir o tratamento e as demais recomendações médicas corretamente. 

Veja mais: Hipertensão e diabetes: inimigos silenciosos dos rins 

Mas, de modo geral, além de manter acompanhamento médico frequente, algumas dicas podem fazer a diferença no cuidado com a saúde dos rins. Confira algumas:3

E aí, tudo pronto para incorporar essas dicas no seu dia a dia?

Os bons hábitos são essenciais para a prevenção de doenças e a busca por mais qualidade de vida. 

Veja outros conteúdos no blog do FazBem para seguir o caminho rumo a uma vida mais saudável!

Referências:

  1. Sociedade Brasileira de Nefrologia

(Disponível em: <https://www.sbn.org.br/orientacoes-e-tratamentos/doencas-comuns/insuficiencia-renal/>. Último acesso em: 26 set. 2023)

  1. Sociedade Brasileira de Nefrologia

(Disponível em: <https://www.sbn.org.br/o-que-e-nefrologia/compreendendo-os-rins/>. Último acesso em: 26 set. 2023)

  1. Biblioteca Virtual em Saúde

(Disponível em: <https://bvsms.saude.gov.br/insuficiencia-renal-cronica/>. Último acesso em: 26 set. 2023)

FONTE: Blog Programa FazBem

O risco de misturar bebidas alcóolicas com energético

O final de ano costuma ser um período repleto de comemorações, reunião com o pessoal do trabalho, com familiares e amigos em festas e confraternizações. O que é excelente, a não ser pelo fato de que algumas pessoas acabam colocando a saúde de seu coração em risco sem ao menos saber. É o que acontece ao misturar bebidas alcóolicas, principalmente, quando essa mistura também inclui energéticos. ¹

Nas festas, essa mistura é popular porque muitos alegam que o energético anula os efeitos depressivos do álcool, como sono e reflexos lentos. Porém isso não é verdade e misturar bebida alcóolica com energético apenas potencializa o risco de arritmias, além de ser desencadeador de problemas cardiológicos maiores no futuro. ¹

Continue lendo para entender o que a mistura de bebidas alcoólicas com energéticos pode causar para a saúde do coração e como se prevenir nas festas de fim de ano.

Efeitos do álcool no coração

O álcool em quantidade excessiva e consumo constante, provoca uma série de malefícios a saúde, direta e indiretamente. De forma indireta, o álcool é fator de risco adicional para o Infarto Agudo do Miocárdio e hipertensão arterial, principalmente em pacientes que têm diabetes e colesterol elevado. ²

Diretamente, provoca o enfraquecimento do músculo cardíaco e pode levar ao desenvolvimento da cardiomiopatia alcoólica (CMA) e, ao longo do tempo, ela evolui para insuficiência cardíaca, caracterizada por falta de ar, fraqueza, cansaço e inchaço no corpo. Pode evoluir, também, para arritmias cardíacas, que têm como sintoma palpitações, tonturas e desmaios. Juntas, essas duas doenças somam 10% de mortalidade anual. ²

Consumo do álcool, o que é considerado prejudicial ao coração?

  • Consumo moderado: esse tipo de consumo corresponde a, no máximo, duas doses diárias para homens e uma dose para mulheres saudáveis, ou seja, sem qualquer doença pré-existente que seja fator de risco para acidentes cardiovasculares (uma pessoa livre de hipertensão, diabetes e colesterol, por exemplo). ²
  • Consumo excessivo: esse tipo de consumo se caracteriza pelo consumo diário de quatro doses ou mais ingeridas. ²

O que é considerado uma dose?

Uma dose corresponde a 14g de etanol, ou então, a 350 mL de cerveja, 150 mL de vinho ou 45 mL de destilados como cachaça e vodka. ²

Sobre energéticos e saúde do coração

O consumo de energéticos não se restringe apenas a baladas e festas de fim de ano. Pelo contrário, seu uso no dia a dia, principalmente entre os jovens, tem se tornado cada vez mais comum. Isso devido a sua promessa de aliviar a fadiga e cansaço, melhorar o desempenho físico e mental, em atividades como estudar, malhar, trabalhar e claro, devido a sua capacidade de estender a energia em períodos de diversão em festas. ³

Os energéticos atuam de forma que desregulam o sistema endócrino, por isso, afetam as batidas do coração e podem ter consequências graves quando são consumidos de forma inadequada. Até mesmo o consumo regular, em quantidades moderadas, pode levar a síndrome da morte súbita por arritmia. ³

Cafeína e os riscos para o coração

A alta quantidade de cafeína presente nos energéticos aumenta a frequência cardíaca e a pressão arterial, aumentando significativamente o risco de arritmia, ataques cardíacos, aumento da pressão arterial. O metabolismo constantemente acelerado cria um cenário de estresse que propicia cada vez mais arritmias e ataques cardíacos. ³

Muitas vezes, a cafeína está no rotulo do produto como “guaranine”, “ginseng” e “taurina”. O guaranine, extraído do guaraná, tem concentração duas vezes maior que o café. Por isso, é importante analisar também os rótulos. A quantidade de cafeína indicada por não incluir essas outras substâncias que são ricas em cafeína. ³

Misturar bebida alcoólica com energético

O problema de misturar bebidas alcóolicas como whisky e vodka com o energético é que essas bebidas, com alto teor alcoólico, provocam irritação no músculo do coração devido a intoxicação por cafeína. O resultado disso é ansiedade, insônia, dor estomacal, tremores, taquicardia, agitação e até mesmo a morte súbita, quando a dose é muito acima do que o corpo está habituado.  1,3

O energético, ao deixar o usuário em alerta e com o metabolismo acelerado, faz com que ele beba ainda mais álcool. Esse excesso potencializa os efeitos da cafeína, ou seja, intensifica o potencial de causar danos ao coração que essa substância naturalmente tem se consumida em doses elevadas. ³

O perigo está justamente no efeito “mascarador” que o energético tem nos sintomas da embriaguez e faz com que o usuário não se sinta tão embriagado quanto realmente está. A toxicidade do álcool também tem seu efeito potencializado pelo energético, aumentando a pressão arterial e ocasionando um possível acidente vascular cerebral (AVC) 3,4

Como se cuidar no fim do ano e não correr risco?

Apesar do uso do álcool e do energético serem lícitos, é mais do que claro que seu uso em excesso, especialmente quando combinados, trazem sérias consequências para seus usuários.  Principalmente para aqueles com doenças pré-existentes que são fatores de riscos para doenças do coração. 5

Portanto, pessoas com colesterol, pressão arterial alta e diabetes devem evitar o consumo do álcool, bem como o consumo e mistura com energéticos devem estar fora de cogitação. É importante que uma conversa franca seja estabelecida com seu médico sobre o assunto.

Possivelmente, ele abra uma pequena exceção para períodos de festas como o fim de ano, em uma quantidade segura para sua saúde. Porém, isso vai variar de caso a caso. Existem também as possibilidades de cervejas sem teor alcoólico, que devem ser consideradas. 5

A comemoração de fim de ano deve ser saudável e não trazer problemas, concorda? Converse com seu médico e veja quais são suas possibilidades, não coloque a saúde do seu coração em risco. Boas festas!

Referências

1 – ASSOCIAÇÃO EMPRESARIAL DA REGIÃO METROPOLITANA DE FLORIANÓPOLIS. MISTURA DE ENERGÁTICO COM ÁLCOOL É UM PERIGO PARA O CORAÇÃO. DISPONÍVEL EM: https://www.aemflo-cdlsj.org.br/noticias/mistura-de-energetico-com-alcool-e-um-perigo-para-o-coracao ACESSO EM 28/11/22

2 – CENTRO DE INFORMAÇÕES SOBRE SAÚDE E ÁLCOOL. COMO O ÁLCOOL INTEREFE NA SAÚDE DO SEU CORAÇÃO? DISPONÍVEL EM: https://cisa.org.br/sua-saude/entrevistas/artigo/item/305-como-o-alcool-interfere-na-saude-do-seu-coracao ACESSO EM 28/11/22

3 – SOCIEDADE MINEIRA DE TERAPIA INTENSIVA. CONSUMO DE ENERGÉTICOS PODE LEVAR À SÍNDROME DA MORTE SÚBITA POR ARRITMIA. DISPONÍVEL EM: https://www.somiti.org.br/visualizacao-de-noticias/ler/59/consumo-de-energeticos-pode-levar-a-sindrome-da-morte-subita-por-arritmia ACESSO EM 28/11/22

4 – REDE BRASIL AVC. MISTURA DE ÁLCOOL COM ENERGÉTICO PODE LEVAR A UM AVC. DISPONÍVEL EM: https://redebrasilavc.org.br/mistura-de-alcool-com-energetico-pode-levar-a-um-avc/ ACESSO EM 29/22/22

5 –  FERREIRA, SIONALDO. MELLO, MARCO.  FORMIGONI, MARIA. O CONSUMO DO ÁLCOOL E AS DOENÇAS CARDIOVASCULARES – UMA ANÁLISE SOB O OLHAR DA ENFERMAGEM. DISPONÍVEL EM: https://www.scielo.br/j/ean/a/CL9N7ymK3S9RJTLSQdPyW7C/?format=pdf&lang=pt ACESSO EM 29/11/22

FONTE: Blog FazBem

Programa Remama na prevenção e tratamento do câncer

No início do Outubro Rosa, nos dias 6 e 7, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) promoveu o Simpósio Internacional de Exercício e Câncer & 3º Festival Paulista de Remadoras Rosas em celebração aos dez anos do Programa Remama no Brasil. Os eventos reforçaram a importância do exercício físico para o tratamento do câncer e da conscientização acerca da prevenção e diagnóstico precoce.

Patrícia Chakur Brum, professora da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE), e Christina May Moran de Brito, médica do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, ressaltam o duplo auxílio oferecido pelo programa: psicológico e físico. Inspirado no modelo canadense, a iniciativa foi pioneira no Brasil.

Benefícios do exercício

Patrícia explica que, diferentemente da cardiologia, em que se tem muito bem definidas as formas e intensidades de exercícios necessários para o tratamento, no campo oncológico ainda há conhecimentos científicos muito incipientes. A partir desse cenário, o Programa Remama representa, na visão da médica, uma grande contribuição para mostrar que o exercício está relacionado a um tratamento complementar e contínuo do câncer: “Na prevenção ao diagnóstico, durante o tratamento e na sobrevida pós-tratamento”.

“Exercício é um grande aliado do paciente oncológico, então, auxilia em várias frentes”, afirma a médica. Christina ainda acrescenta que existe uma espécie de quadrinômio de sintomas –  dor, fadiga, transtornos do humor e distúrbios do sono  – no qual o hábito de se movimentar pode impactar positivamente, assim como na melhora da tolerância ao tratamento. “Os estudos ainda não têm alto nível de evidência nesse sentido, mas observa-se na prática clínica, então, acredita-se que seja uma questão de tempo essa demonstração”, considera Christina de Brito. Por outro lado, em casos de três tipos de câncer – mama, cólon e próstata –, a médica afirma que o exercício regular reduz a recorrência das doenças.

Dez anos do Remama 

“É uma experiência muito linda, você vê no dia a dia e remando com elas o quão bem faz, porque o Remama não é só a prática da atividade física na Raia”, reflete a professora, ao destacar o papel de apoio emocional oferecido no programa também. Dessa forma, os benefícios dessa atividade ultrapassam as barreiras físicas e biológicas e se transformam em um núcleo de convivência para troca de experiências semelhantes.

Durante o período pandêmico, Patrícia comenta o surgimento do Oncofit, em que atividades físicas remotas eram ministradas e que continua na ativa até hoje. A professora também ressalta o trabalho em conjunto a partir dos barcos de 22 pessoas, em que 20 remam, uma toca o tambor para manter o ritmo e a outra guia a direção. Assim, para uma prevenção além do exercício e bons hábitos de saúde, a médica chama a atenção para o histórico familiar – que influencia na recorrência de exames de mamografia – e para o autoexame durante o banho depois de períodos menstruais.

FONTE: Jornal da USP

Disautonomia é pouco conhecida, mas comum nas ocorrências médicas

Disautonomia é uma doença caracterizada pela disfunção do sistema nervoso autônomo (SNA). A condição é pouco discutida pela população e pouco presente nos currículos médicos. Entretanto, é relativamente comum nas ocorrências hospitalares e pode passar despercebida se não houver um diagnóstico preciso.

Edson Bor-Seng Shu, professor e médico da Clínica Neurocirúrgica do Hospital das Clínicas e vice-coordenador do curso de extensão universitária do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da USP, explica as possíveis causas da doença e como diagnosticá-la.

A doença 

O sistema nervoso autônomo, também conhecido como sistema neurovegetativo, é um componente do sistema nervoso e é responsável por controlar autonomamente algumas funções do organismo, como o sistema cardiocirculatório cerebral, o sistema urinário e o sistema gastrointestinal, por exemplo. Segundo Shu, o SNA tenta adaptar o meio interno ao meio externo, fazendo o organismo funcionar da melhor forma possível. Entretanto, quando há uma perda ou diminuição da eficácia dessa autonomia de regulação do corpo, os médicos classificam essa condição como disautonomia, ou disfunção autônoma.

Como explica Shu, a disautonomia pode acontecer concomitantemente a outras doenças, como a doença de Parkinson, doenças autoimunes inflamatórias e doenças infecciosas. “Durante a pandemia de covid-19, tivemos uma explosão de casos de disautonomia, já que o próprio coronavírus pode desencadear sintomas dessa condição.”

Possíveis causas 

O médico pontua que existem inúmeros fatores que desencadeiam ou agravam a falta de eficácia de funcionamento do SNA. “O álcool – um vasodilatador – pode provocar vermelhidão no rosto, que nada mais é do que uma disautonomia na microcirculação da pele. Dependendo da quantidade ingerida, pode ser possível identificar sintomas da disautonomia” explica. Além disso, medicamentos como anti-hipertensivos, antidiuréticos e antidepressivos também podem desencadear a condição de disautonomia.

Existem também os casos chamados de disautonomia primária, em que os médicos investigam e não encontram nenhuma condição associada ou causa para a doença. Atualmente, de acordo com o especialista, a medicina está conseguindo desvendar algumas possíveis causas, como mutações nos genes.

De acordo com Shu, o diagnóstico da disautonomia é eminentemente clínico e os médicos podem solicitar exames que comprovem os sinais da doença no organismo. Para realizar um diagnóstico, entretanto, é preciso conhecer seus sintomas. O sistema nervoso autônomo controla o funcionamento de diferentes órgãos e sistemas. Portanto, os sintomas são decorrentes do mau funcionamento desse conjunto.

“Os sintomas podem ser: intolerância ortostática – caracterizado pela dificuldade em permanecer muito tempo em pé –, mal-estar, desconforto, tontura, cansaço, palpitações, dificuldade em controlar a pressão arterial em níveis estreitos, desmaios, e embaçamento de visão, por exemplo. Existem também os sintomas cerebrais, como diminuição da atenção e concentração, dificuldade em focar nas atividades, memória fraca” aponta o especialista.

De modo geral, os sintomas mais frequentes são decorrentes de alterações na circulação central e o sistema nervoso autônomo é responsável por regular o fluxo de sangue no corpo e no cérebro. No plano horizontal, é muito mais fácil manter o sangue circulando da cabeça aos pés. Quando o indivíduo está de pé, o sangue começa a se acumular na metade inferior do corpo, devido à gravidade. Em condições normais, o SNA promove a vasoconstrição da microcirculação, que bombeia sangue dos membros inferiores para o coração, que posteriormente será bombeado para o cérebro.

Acompanhamento

Para os indivíduos acometidos pela doença, é preciso realizar um acompanhamento profissional, que pode ser feito por cardiologistas e neurologistas. Entretanto, Shu pontua que qualquer médico consegue realizar o diagnóstico, já que a disautonomia provoca sintomas em múltiplos órgãos do sistema.

Primeiro, os médicos realizam uma avaliação clínica geral do paciente, independentemente da especialidade. Depois, se há suspeita de disautonomia, os profissionais investigam os fatores que precipitam ou desencadeiam a condição e investigam as doenças que frequentemente estão associadas a ela.

FONTE: Jornal da USP

Você sabe qual é a especialidade de um médico hebiatra?

Hebiatra é o médico especialista em adolescentes, a hebiatria é fundamental para acompanhar mudanças não apenas físicas, mas também psicológicas, entre os jovens de 10 aos 20 anos.

Muito novo para o clínico geral e muito velho para o pediatra. Essa é a realidade do adolescente, que vive uma complexa fase não apenas social, psicológica e fisiologicamente, mas também no sistema de saúde. É para isso que existe a hebiatria, um ramo da pediatria que ganhou força nos Estados Unidos a partir da década de 1950, mas foi reconhecido pela Associação Médica Brasileira (AMB) apenas em 1998. E embora 25 anos seja bastante tempo para a formação de novos hebiatras, a realidade é diferente. Segundo o jornal Estado de Minas, são apenas 200 médicos que atuam neste ramo em todo o Brasil, o que evidencia uma lacuna dos 10 aos 20 anos, faixa etária que representa aproximadamente 15,5% da população brasileira, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o que significa cerca de 31,5 milhões de pessoas.

Formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o médico pediatra Luiz Roberto Verri de Barros, que atende na Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Lobato, em Ribeirão Preto, explica: “Hoje em dia, a gente forma o pediatra com noções, ele pode acompanhar a hebiatria tranquilamente. Mas existem os hebiatras. Tem uma colega de turma, formada há 40 anos, que atua na área. Ela se coloca no atendimento ao público em hebiatria mesmo”.

Por outro lado, Verri enxerga um panorama de crescimento no número desses médicos em um futuro próximo. “Agora a gente tem formado (hebiatras). Mesmo os pediatras antigos, como eu, começaram a ter instruções a esse respeito para trabalhar também com a hebiatria. Inclusive, a gente trabalha aqui na UBS nas terças e quintas pela manhã e nas sextas à tarde”, informa.

Embora o número de profissionais que trabalha exclusivamente com adolescentes tenha uma projeção de crescimento para os próximos anos, muitas pessoas sequer sabem da existência desse tipo de médico. Essa questão também tende a mudar, na visão do pediatra, por conta da visão mais atenta que as famílias têm dado a temas como saúde mental e adolescência como um todo.

O hebiatra pede mais espaço

“É necessário que (os adolescentes) tenham seguimento nessa área. Estimular para que eles venham para a consulta, porque a adolescência ficou uma faixa de idade meio sem dono, vamos dizer assim. Para o clínico era muito novo, para o pediatra era muito velho, e os problemas dessa idade são bem específicos. Envolve mudanças no comportamento, envolve situações de ansiedade e depressão”, alerta.

Verri acrescenta que essa é uma faixa etária que precisa de muita atenção sobre os recursos que o jovem adquire para se desenvolver de maneira saudável. Ele cita, ainda, questões recorrentes que envolvem o aspecto psicossocial. “São problemas em relação ao convívio na sociedade, ao convívio familiar, essas mudanças que vão acontecendo, o luto da infância, porque deixa de ser criança e passa a ter uma mente mais elaborada, procurar uma religião, procurar um grupo para se manifestar.”

O especialista também lembra que é nessa fase da vida que começam os namoros e “o desenvolvimento sexual, toda essa parte que precisa de alguém para fazer os aconselhamentos, orientar, negociar com eles uma situação mais tranquila da vida”.

Campanhas de conscientização

Verri finaliza ao ressaltar a importância das campanhas de conscientização sobre diversos problemas. Um dos mais conhecidos entre a população jovem é o Setembro Amarelo, um programa de prevenção ao suicídio criado em 2015. Mas vale destacar que existem outros movimentos do tipo e que os adolescentes “justamente entram em todos, não precisa ser só da adolescência, mas a questão do tabagismo, a questão da obesidade, prevenção do câncer. Toda essa parte o adolescente está sujeito a ter acesso a informações para se prevenir”.

*Estagiário sob orientação de Ferraz Junior

FONTE: Jornal da USP

Quimioterapia e os desafios específicos na terceira idade

A quimioterapia, todo mundo sabe, é um tratamento bastante comum para pacientes diagnosticados com câncer. Funciona como um agente poderoso no combate à doença, ao destruir as células cancerígenas que estão formando o tumor e impedindo, também, que elas se espalhem. Mas o tratamento pode ter particularidades, dependendo das faixas etárias, e na terceira idade os efeitos colaterais podem ser diferentes.

Para a professora Fernanda Maris Peria, do Departamento de Imagens Médicas, Hematologia e Oncologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, especialista em Oncogeriatria, quando o assunto é avaliar a idade do paciente para o tratamento com a quimioterapia, ela afirma ser fundamental saber a  distinção entre idade cronológica, aquela do nascimento, e a idade biológica.

Ela explica: “Assim como existem algumas pessoas que têm uma certa idade, mas aparentam ser muito mais jovens ou mais velhas, isso acontece também do ponto de vista dos órgãos internos, com a diferença de que para eles não existem cirurgias plásticas, botox ou preenchimentos. Então, o que acaba acontecendo nesse paciente idoso é que a reserva dele a um estímulo agressivo é bem menor”.

Em outras palavras, a capacidade do corpo de lidar com situações de estresse, agressões ou doenças, ou seja, a quantidade de recursos que o organismo possui para enfrentar condições adversas, é menor. “E é esse fato que torna os idosos mais propensos a experimentar efeitos colaterais significativos”, detalha a especialista.

Ela ainda discorre que o maior desafio é identificar a idade biológica dos órgãos do paciente, a fim de personalizar o tratamento de maneira mais adequada. “Não necessariamente, se eu tenho 49 anos, todos os meus órgãos têm a mesma idade biológica. Às vezes, meu coração pode ter a vitalidade de uma pessoa de 30 anos, enquanto meu rim pode ter a saúde de alguém de 60 anos. Essa disparidade ocorre devido a diversos fatores, como genética, hábitos de vida e exposição a agentes agressivos”.

Mas a especialista destaca que, embora os efeitos colaterais se manifestem de forma mais intensa em pacientes idosos, eles são os mesmos para todos.

Montagem no Canva por Julia Valeri e texto por Fernanda Maris Peria

“Além dos efeitos colaterais comuns, algumas drogas presentes na quimioterapia podem causar toxicidade específica em órgãos como coração, rim ou sistema nervoso, levando a problemas adicionais para os idosos, que podem já ter desafios de saúde nesses órgãos”, ressalta. Portanto, Fernanda Maris ressalta que é importante considerar as comorbidades dos pacientes idosos ao escolher um tratamento, especialmente se algumas drogas podem afetar órgãos já comprometidos. Ela também compara a adesão rigorosa ao plano de tratamento a seguir uma receita de bolo – qualquer desvio pode resultar em problemas.

Protocolo

“O que existe hoje, é uma padronização, chamada AGA, Avaliação Geriátrica Ampla, para todo o paciente de terceira idade que está prestes a passar por sessões de quimioterapia”, a especialista assegura. A Avaliação Geriátrica Ampla envolve uma análise detalhada da condição do paciente e precisa ser cuidadosamente discutida entre o geriatra e o oncologista. Esse processo é essencial para garantir que o tratamento seja adaptado às necessidades específicas e às condições de saúde do paciente idoso, garantindo a eficácia do tratamento e minimizando os efeitos colaterais.

Ela expõe que, na consulta com o oncologista, o profissional faz uma análise detalhada dos prós e contras do tratamento. Ele fornece informações cruciais sobre a agressividade do tumor, a probabilidade de resposta ao tratamento, as opções terapêuticas disponíveis e os principais efeitos colaterais associados a essas intervenções, ele também avalia a possibilidade de melhora na qualidade de vida e na sobrevida do paciente frente ao tratamento proposto.

“Por sua vez, o geriatra contribui com uma avaliação especializada, considerando as características específicas do idoso em questão, como fragilidade em relação à idade e às condições de saúde. Ele desempenha um papel crucial ao determinar se o paciente possui fragilidades significativas, aumentando assim o risco de complicações com qualquer forma de tratamento”, aborda. No Brasil, esse procedimento é recomendado para pacientes a partir dos 60 anos, enquanto na Europa e nos Estados Unidos é indicado a partir dos 65 anos, embora as populações de maior risco estejam geralmente na faixa dos 70 a 75 anos.

A especialista, no entanto, enfatiza que decidir sobre a viabilidade do tratamento exclusivamente com base na idade não seria uma abordagem adequada. “Lembro claramente que, há 20 anos, transcrever quimioterapia para pacientes com mais de 70 anos que tinham câncer de próstata era contraindicado, devido à idade avançada. Escrevi isso várias vezes nos prontuários naquele período, mas se olharmos agora, onde a média de idade dos pacientes com câncer em todo o mundo gira em torno dos 65-67 anos, isso significaria impedir esses pacientes de viver mais tempo e com uma qualidade de vida melhor”

Ela diz que a chance de resposta ao tratamento não difere significativamente entre idosos e adultos jovens. “A principal preocupação reside nos diferentes efeitos colaterais que esses regimes de tratamento podem ter em um organismo jovem em comparação com um organismo idoso”, conclui.

Mas o que é a quimioterapia?

A professora Fernanda Maris esclarece que a quimioterapia consiste em um grupo de várias medicações que têm em comum a tentativa de destruir as células que estão se multiplicando. “Essas células podem ser tanto as células tumorais quanto as nossas células normais, como as células do cabelo, unhas e a mucosa da boca”.

Existem diversos tipos de quimioterapia, que variam desde medicações administradas via intravenosas até quimioterápicos orais, intramusculares e subcutâneos. “A escolha do método depende das necessidades específicas de cada paciente e do tipo de câncer em questão, sendo essencial adaptar o tratamento às características individuais de cada caso”, analisa.

Montagem no Canva por Julia Valeri e texto por Fernanda Maris Peria

FONTE: Jornal da USP

Microbiota intestinal pode ajudar a entender casos de depressão

Um estudo publicado pela revista Nature Communications identificou 13 tipos específicos de bactérias intestinais vinculadas ao transtorno de depressão. De acordo com os cientistas, esses organismos estão envolvidos na síntese de neurotransmissores, como glutamato, butirato, serotonina e o ácido gama, que podem ter relação com a doença.

Fernando Fernandes, médico do Programa de Transtornos Afetivos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica o estudo realizado e suas implicações.

Relação entre intestino e cérebro 

Estudos que analisam a microbiota intestinal são mais recentes e apresentam um campo de análise promissor. Entretanto, a conexão entre questões intestinais e cerebrais já é bastante observada e estudada. Segundo Fernandes, doenças intestinais são mais comuns na depressão, como doenças inflamatórias e alterações no trato gastrointestinal, por exemplo.

“Um estudo antigo do nosso grupo atestou que a motilidade gastrointestinal está diminuída na depressão. Então, parece que existem vias comuns neuronais e mediadores inflamatórios que caminham lado a lado tanto na depressão quanto no funcionamento gastrointestinal”, pontua.

O estudo 

A pesquisa produzida pela Nature realizou um estudo observacional, através do acompanhamento de pacientes com diagnósticos de depressão. “Os pesquisadores avaliaram a composição da microbiota intestinal dos estudados e atestaram que indivíduos que tinham quadros de depressão mais grave possuíam mais de uma espécie de microrganismos, diferentemente dos indivíduos sem diagnóstico de depressão”, explica o médico.

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Fernandes acrescenta que, como qualquer estudo observacional, esse não estava isento de vieses. Então, é preciso levar em consideração que os pacientes faziam uso de diferentes medicações e consumiam diferentes dietas – variáveis que podem interferir diretamente na composição da microbiota intestinal e, assim, no resultado do estudo. Além disso, outro fator que não pode ser desconsiderado é que casos de depressão são mais comuns em mulheres.

O médico destaca que o mecanismo pelo qual é associada a microbiota com o diagnóstico de depressão é muito mais indireto do que se pensa. Já se sabe, por exemplo, que esse transtorno – em alguns subtipos e pacientes – é um estado pró-inflamatório. “Em nível sistêmico corporal, ele é ativado na depressão, e esse estado pró-inflamatório pode influenciar na microbiota, da mesma forma que o tipo de microbiota que a pessoa tem também pode perpetuar esse estado inflamatório.” Essa análise, portanto, é apenas um ponto de partida para estudos detalhados, e ainda não é possível realizar grandes saltos qualitativos.

Fernandes destaca que, mesmo com descoberta realizada, ainda não existem evidências que provem que suplementos que mudem a microbiota intestinal tenham eficácia contra o transtorno de depressão. Atualmente, existem inúmeros tratamentos para a doença que já provaram sua eficácia. Probióticos e mudanças alimentares podem auxiliar no tratamento, mas não possuem poderes curativos.

O médico aponta que as causas da depressão são múltiplas e são estudadas por inúmeras áreas da saúde. A conexão entre intestino e cérebro é mais uma corrente de estudo que pode contribuir para entender sua etiologia e as melhores formas de tratamento para a doença.

FONTE: Jornal da USP

Proteína que o corpo já produz pode amenizar efeitos do envelhecimento no cérebro

Ao favorecer a produção de energia e a imunidade das células do sistema nervoso, proteína klotho estimulou ação antioxidante contra estresse e destruição celular

Os efeitos benéficos da proteína klotho, produzida pelo corpo humano, nas células do sistema nervoso são mostrados em pesquisa do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Experimentos feitos em laboratório mostram que a proteína, ao favorecer a produção de energia e a imunidade das células, também estimula a ação antioxidante contra o estresse e a destruição celular.

Os resultados do estudo reforçam o papel da klotho como possível opção para contornar os efeitos do envelhecimento no sistema nervoso, associado a doenças neurodegenerativas como o Alzheimer e o Parkinson. A pesquisa é descrita em artigo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature.

Metabolismo no sistema nervoso

Para entender o papel da klotho, primeiro é preciso entender como é obtido o suprimento de energia do sistema nervoso central. “Sabemos que o cérebro pesa 2% do peso do corpo mas gasta 20% da energia que uma pessoa consome quando em repouso. Os neurônios possuem uma alta demanda energética, pois são as principais células envolvidas com nossa capacidade de memorizar, aprender, pensar”, explica ao Jornal da USP a pesquisadora Ana Maria Marques Orellana, do ICB, primeira autora do artigo.

Já os astrócitos, diz ela, são células de suporte. “Isolam as sinapses, que são os espaços entre os neurônios onde ocorre a transmissão de informações de uma célula a outra, protegem eles na vigência de um estímulo lesivo, juntamente com as células do sistema imunológico do cérebro, que são as micróglias, e também têm um papel fundamental no suprimento de energia.”

A pesquisadora relata que a principal fonte de energia para o cérebro é a glicose, que chega até o órgão pela circulação sanguínea. “Quem controla a entrada de nutrientes no sistema nervoso é a barreira hematoencefálica, que tem transportadores específicos para diversos nutrientes, como a glicose, os corpos cetônicos (fonte de energia em jejum), e o lactato”, aponta.

Mas como evitar oscilações no suprimento de energia aos neurônios? “Os astrócitos fazem isso. Eles captam a glicose e a transformam em glicogênio, gerando um pequeno estoque. Os neurônios não têm capacidade de estocar energia, consomem a glicose imediatamente. Então os astrócitos mantêm o suprimento constante.”

Outra via pela qual os astrócitos são capazes de suprir os neurônios é fornecendo lactato, obtido pela conversão de glicose, quando seu nível está em baixa e durante a atividade física. “Para evitar oscilações dependentes das concentrações de substratos oriundos do sangue, existe um acoplamento energético natural entre neurônios e astrócitos”, descreve Ana Orellana. “O neurônio capta a glicose e esta será usada para gerar energia imediatamente, sem estoque. O astrócito, por sua vez, capta a glicose, que é armazenada como glicogênio, favorecendo uma reserva.

Nos neurônios, a divisão da glicose também se dá por duas vias (conjunto de reações químicas), a das pentoses e a da PFKFB3. Porém, a das pentoses é a preferencial por estimular sistemas anti-oxidantes, logo, idealmente a PFKFB3 deve ser constantemente inibida. A via das pentoses utiliza moléculas de carboidratos com cinco átomos de carbono cada uma, as pentoses, e a PFKB3 é uma enzima que atua no metabolismo da glicose.

Proteção das células

A pesquisa verificou se a klotho era capaz de alterar parâmetros do metabolismo em neurônios e astrócitos e se isso os protegeria. “Ela é uma proteína anti-envelhecimento produzida nos rins e no sistema nervoso central. Seus níveis se relacionam diretamente com o envelhecimento, assim, ao longo dos anos, temos menos klotho no sangue e no cérebro. Isso está associado ao déficit cognitivo”, afirma Ana Orellana. “Ademais, sabemos que no envelhecimento temos redução do metabolismo de glicose e oxigênio no cérebro, o que fica mais intenso na presença de doenças neurodegenerativas, e também há alterações na eficiência das mitocôndrias, parte das células que produz energia, e queda na atividade da via das pentoses nos neurônios.”

Em culturas de células do sistema nervoso, proteína klotho contrapõe efeitos nocivos da insulina, favorece degradação e eliminação de proteínas e aumenta potencial antioxidante. Na imagem, astrócito em cultura de tecidos corada com anticorpos para GFAP e vimentina – Imagem: Reprodução/GerryShaw via Wikimedia Commons/CC BY 3.0

“Observamos que as culturas de astrócitos quando foram tratadas com klotho in vitro, em laboratório, tiveram diminuição dos efeitos moleculares desencadeados pela insulina e portanto aumento da sinalização anti-oxidante. Para entender como esse efeito anti-oxidante atua, expusemos essas células a diferentes graus de estresse oxidativo e a klotho foi capaz de proteger os astrócitos da morte diante de estímulos de baixa e média intensidade”, afirma a pesquisadora.

“Já os neurônios tratados com a klotho tiveram redução da atividade de algumas proteínas relacionadas à cascata molecular desencadeada pela insulina, que é fundamental para que a glicose adentre à célula, mas que interfere negativamente em mecanismos de degradação proteica, que podem ser benéficos para o cérebro. A klotho promoveu uma redução da via da PFKFB3, favorecendo a via das pentoses que aumenta a conversão de fatores anti-oxidantes na célula, e também a degradação de proteínas, que normalmente está menos ativa no envelhecimento.”

Segundo a cientista, a redução da PFKFB3 e o aumento da degradação das proteínas não foi suficiente para proteger os neurônios das mesmas concentrações de estresse oxidativo às quais os astrócitos foram submetidos, indicando que um estímulo intermediário para o astrócito é intenso para o neurônio, levando à morte. “Em trabalhos anteriores, no entanto, verificamos que, na vigência de inflamação, a klotho protege o neurônio da morte se o estímulo for intermediário para ele”, ressalta.

“Sabemos que a sinalização da insulina é fundamental para a vida, mas a super estimulação dessa via tem um caráter prejudicial na medida em que inibe a degradação de proteínas mal enoveladas, de agregados, prejudica a autofagia [processo normal de degradação de componentes da própria célula], tem potencial pró-inflamatório e aumenta o estresse oxidativo. A klotho contrapõe os efeitos da insulina, favorece a degradação e eliminação de proteínas e aumenta o potencial antioxidante.”

O professor do ICB, Cristóforo Scavone, que orientou a pesquisa, relata que há estudos mostrando que a administração periférica de klotho reverte o déficit cognitivo em modelo animal de Parkinson.

Desenvolver uma preparação com nanopartículas para levar klotho ao sistema nervoso central pode ser uma alternativa às vacinas contra o Alzheimer ou mesmo para terapias de outras doenças neurodegenerativas”

Aparentemente, haveria menos efeitos colaterais, pois as ações da klotho são bem balanceadas, e os anticorpos provocam edema, inchaço. Porém essas são hipóteses que vão exigir anos de pesquisas, ressalva Scavone.

Ana Orellana destaca que é possível melhorar os níveis da klotho no organismo por meio de exercício físico regular e da administração de compostos presentes na alimentação, como o resveratrol, existente nas uvas roxas. “Além da atividade física, a ingestão de menos calorias pode reduzir a estimulação da via da insulina, e o consumo de vinho em baixas quantidades poderia proporcionar o benefício do resveratrol”. Os estudos no ICB tiveram a colaboração do National Institue of Aging (NIA), em Baltimore (Estados Unidos).

Mais informaçõese-mails orellana@usp.br, com Ana Maria Marques Orellana, e criscavone@usp.br, com o professor Cristóforo Scavone

*Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado

FONTE: Jornal da USP

Sistema de transplantes brasileiro é o maior programa público do mundo

O recente caso do transplante do coração do apresentador Fausto Silva fez com que voltasse à tona o assunto de doação de órgãos no Brasil. Por conta da velocidade com que foi realizado o procedimento, muitas pessoas começaram a questionar a veracidade do sistema público de transplantes, alimentando a narrativa de que houve um favorecimento a Faustão.

Com isso, o Ministério da Saúde, em conjunto com o Governo de São Paulo, publicou uma nota para refutar esses apontamentos. Na publicação, eles ressaltam que não houve nenhum tipo de irregularidade e explicaram, brevemente, como funciona o processo para a transplantação.

Luciana Bertocco de Paiva Haddad, médica assistente do Serviço de Transplantes de Órgãos Abdominais e coordenadora do Ambulatório de Transplantes Abdominais do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), destaca: “Ele tinha um tipo sanguíneo mais raro, o tipo B, e ,além disso, ele ganhou uma priorização por conta da condição clínica dele. Tudo isso funciona de forma super transparente e muito rigorosa”.

Referência mundial

O Ministério da Saúde afirma que o Sistema Único de Saúde (SUS) possui o maior programa público de transplante do mundo, o qual garante que 87% dos transplantes sejam feitos com recursos governamentais. Segundo a médica, a coordenação integrada entre Sistema Nacional de Transplantes (SNT), Ministério da Saúde e secretarias estaduais da saúde é muito bem feita, principalmente pela extensão territorial do País, e isso é fundamental para o sucesso do projeto.

Independentemente da forma como o transplante é pago, pelo SUS ou não, a chance de receber um órgão é a mesma. A médica afirma que todos têm acesso à informação e à gestão da lista de espera, o que demonstra toda a lisura do processo. O Brasil está em segundo lugar na lista dos países que mais realizam o procedimento, atrás apenas dos Estados Unidos — contudo, no país norte americano o processo é privado. Só no ano passado, o número de transplantes bem sucedidos ultrapassou a marca de 23 mil.

Dificuldades

No primeiro semestre de 2023, o número de doadores de órgãos no Brasil bateu recorde, atingindo a marca de 19 por milhão de habitantes e a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) estabeleceu a meta de 20 doadores por milhão de habitantes até o final do ano. Ainda de acordo com a ABTO, os Estados de Santa Catarina e Paraná são os que possuem o maior número de doadores por indivíduos.

Apesar disso, aumentou também a rejeição das famílias em doar órgãos do paciente — antes da pandemia o número era de 42% e hoje beira a casa dos 50%. Com isso, a lista de espera para receber um órgão ainda é grande, contando com mais de 65 mil brasileiros, um dos maiores números dos últimos 25 anos, conforme o Ministério da Saúde. Para a médica, essa realidade pode ser revertida a partir de políticas públicas que sejam responsáveis por educar a população, ensinando-a sobre a necessidade e o processo dessa atitude.

“Nós ainda temos um número insuficiente de doadores para nossa demanda, o Brasil tem um número grande de transplantes, mas a necessidade é ainda maior”, analisa Luciana. Além disso, a especialista afirma que o financiamento precisaria ser melhor, ainda que atualmente não seja ruim. Por esse motivo, o Brasil ocupa o segundo lugar entre os sistemas mais eficientes do mundo, abaixo da Espanha. Vale ressaltar que o modelo espanhol também é público e foi a principal inspiração para a criação do sistema brasileiro.

O processo

A lista de espera para recebimento de órgãos no Brasil possui uma burocracia que, segundo a especialista, é realizada de forma transparente e rigorosa pelo Ministério da Saúde. “A entrada na lista de espera depende de cada órgão. Para todos eles é considerada a gravidade, o tipo sanguíneo e, além disso, tem alguns critérios de priorização que são diferentes para os diferentes órgãos”, explica Luciana.

O processo é iniciado quando o paciente é incluído em uma lista única — tanto para pacientes de rede privada quanto para pacientes do SUS — , a qual é auditada, e as equipes de profissionais têm acesso. A partir disso, os dados são divulgados e atualizados diariamente. A listagem é feita com base em diferentes critérios: tipo sanguíneo, compatibilidade de peso, altura e genes e a gravidade do paciente. Caso esses critérios sejam parecidos, o Ministério utiliza a ordem de cadastro para selecionar o transplantado e, em situações de paciente em estado crítico, ocorre a sua priorização.

Para se tornar um possível doador de órgãos, é preciso avisar a família dessa vontade, uma vez que, atualmente, não há nenhuma outra ação que precise ser feita. Após o diagnóstico de morte encefálica e a autorização da família, a equipe de saúde realiza uma investigação do histórico do possível doador. Alguns pontos como doenças crônicas e o uso de drogas injetáveis podem comprometer um órgão, portanto, é necessário essa avaliação médica para garantir a segurança do receptor e da equipe médica. “Você precisa comunicar a sua família, uma vez que a autorização para doação de órgãos é feita depois da ocorrência de uma morte encefálica e é a família que autoriza essa doação de órgãos”, esclarece a médica.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo

FONTE: Jornal da USP

As estratégias que ajudam a conter superbactérias em hospitais

A identificação rápida de pacientes contaminados por um tipo de “superbactéria” – as enterobactérias resistentes aos carbapenêmicos (CRE, na sigla em inglês) – e o isolamento precoce desses indivíduos reduzem a transmissão em áreas de internação de pronto-socorro (PS). No entanto, mantê-los por mais de dois dias na emergência compromete os esforços de contenção porque aumenta o risco de contaminação, a chamada colonização.

Esses são os principais achados de uma pesquisa feita por um grupo da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Os resultados foram divulgados na revista Clinical Infectious Diseases.

As enterobactérias são um tipo de bactéria (gram-negativas) que geralmente causam infecções em ambientes de saúde – hospitais e prontos-socorros – e incluem cepas como a Escherichia coli, responsável por infecções urinárias e colite hemorrágica, e a Klebsiella pneumoniae, que pode levar à pneumonia e à infecção de corrente sanguínea. As CRE são consideradas ameaça à saúde pública pela dificuldade de tratamento. Os antibióticos carbapenêmicos geralmente são a última linha de defesa contra infecções provocadas por esses microrganismos.

“Fizemos uma intervenção em um pronto-socorro superlotado, ou seja, um hotspot para transmissão de bactérias resistentes. Vimos que essa intervenção teve um impacto na redução de bactérias multirresistentes dentro do PS e também no próprio hospital”, diz à Agência Fapesp o médico infectologista Matias Chiarastelli Salomão, primeiro autor do artigo e integrante da Subcomissão de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto Central do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP.

Estudos anteriores realizados no Departamento de Emergência já haviam demonstrado que 6,8% dos pacientes admitidos são colonizados por CRE, com uma taxa de contaminação de 18% durante a internação no local.

Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 2022, apontou que a cada 100 pacientes internados em hospitais para cuidados intensivos, sete – em países de alta renda – e 15 – em países de baixa e média renda – adquirem ao menos uma infecção associada à atenção à saúde durante a internação. Em média, um a cada dez pacientes afetados morrerá por este motivo.

De acordo com Salomão, um dos focos do trabalho foi tentar entender e buscar alternativas para impedir que infecções no pronto-socorro se espalhassem para outras alas do hospital. “A intervenção que usamos é pragmática e pode ser aplicada em outros locais. Sobre o resultado relacionado à internação na emergência por mais de dois dias comprometer os esforços de contenção, acreditamos que seja uma questão de estrutura do PS, que não é adaptada para ter pacientes de longo prazo. Ou seja, tem macas mais próximas, pontos de higiene de mãos mais distantes, entre outros”, complementa.

Passo a passo

A pesquisa foi conduzida no pronto-socorro do HC, que tem 800 leitos. Muitas vezes, porém, o local está superlotado, abrigando o dobro de pacientes internados, com alguns permanecendo por mais de 11 dias.

O trabalho foi dividido em duas fases – uma realizada de 3 a 28 de fevereiro de 2020 (período de linha de base), antes de o primeiro caso de covid-19 chegar ao HC, e a outra entre 14 de setembro e 1º de outubro do mesmo ano (período de intervenção). O hospital ficou totalmente dedicado a casos de covid entre 1º de abril e 31 de agosto de 2020, tendo sido reaberto gradualmente a outros tipos de internação depois desta data.

A fase 1 consistiu em um período inicial para determinar a prevalência e a incidência de pacientes colonizados por CRE admitidos no pronto-socorro. Não houve intervenção nessa etapa e os pacientes internados por mais de 24 horas ficaram em macas e camas distribuídas próximas umas das outras, enquanto aguardavam transferência.

Ala de UTI do Hospital das Clínicas – Foto: Governo do Estado de São Paulo/Flickr/CC BY 2.0 DEED

 

Na fase 2 (período de intervenção), indivíduos internados no PS passaram por triagem para CRE nas primeiras 24 horas. Os positivos para superbactérias eram colocados em isolamento até a alta – 90% dos isolados estavam infectados por Klebsiella pneumoniae. Em ambas as fases, os procedimentos de limpeza e desinfecção foram semelhantes e houve monitoramento de antimicrobianos.

Resultado: a colonização na admissão foi de 3,4% por cultura e teste molecular. Já as taxas de contaminação por superbactéria durante a permanência no PS caíram de 4,6% para 1% durante a intervenção. O tempo de permanência maior do que dois dias foi o fator de risco para aquisição de CRE.

“A ideia da pesquisa começou no próprio hospital, onde desde 2014 vem sendo realizado um protocolo de rastreio tanto semanal como admissional nas Unidades de Terapia Intensiva [UTIs]. Isso fez com que as taxas de colonização secundária caíssem de maneira importante. Mas um outro trabalho detectou que continuava havendo uma entrada de superbactérias por meio do pronto-socorro”, conta Salomão, que começou a estudar o tema em seu doutorado.

Desse período, resultaram outros dois artigos, sendo o último publicado em 2020 na revista Emerging Infectious Disease.

O artigo Transmission of Carbapenem-Resistant Enterobacterales in an Overcrowded Emergency Department: Controlling the Spread to the Hospital pode ser lido neste link. A Fapesp apoiou o estudo por meio de um Auxílio à Pesquisa concedido ao médico Icaro Boszczowski, coautor do artigo.

Este texto foi originalmente publicado por Agência Fapesp de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

*Da Agência Fapesp, adaptado por Luiza Caires ao Jornal da USP

FONTE: Jornal da USP