Rede de pesquisa investiga indicadores de saúde do envelhecimento e sua relação com a desigualdade

Colaboração entre universidades brasileiras e britânica explora dados dos dois países para entender o envelhecimento saudável e como lidar com disparidades de saúde em comunidades diversas

Diferenças no processo de envelhecimento e no acesso a cuidados de saúde e recursos são temas da rede – Foto: nappy.co

A capacidade intrínseca é um indicador proposto pela Organização Mundial da Saúde (OMS) considerando as capacidades mentais e físicas, especialmente dos idosos, de uma forma global, nos domínios: psicológico, cognitivo, sensorial, locomotor e vital. Apesar de já utilizado, o conceito está sendo validado em estudos em diferentes contextos. Uma rede de cientistas do Brasil e do Reino Unido, com foco em envelhecimento e desigualdades, vem pesquisando como ele se aplica em populações com diferentes condições socioeconômicas, como a brasileira e a britânica.

“A gente quer entender como o ambiente pode agir como potencializador ou como barreira para o processo de envelhecimento saudável”, explica Laiss Bertola, neuropsicóloga que integra o grupo que no Brasil é sediado na Faculdade de Medicina da USP (FM-USP). Para os pesquisadores, o conceito tem o potencial de “proporcionar uma melhor compreensão dos diferentes caminhos do envelhecimento e, assim, capturar a heterogeneidade”. Pode também “funcionar como um parâmetro positivo para medir a saúde e orientar os profissionais de saúde a melhorar o bem-estar dos idosos”.

Isso, entretanto, depende de saber se ele é aplicável nos diversos países, levando em conta não somente sua realidade social, mas os dados que eles têm disponíveis sobre sua população idosa. No caso brasileiro, um grande passo foi dado num trabalho do grupo que utilizou dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil) – uma amostra representativa de brasileiros com 50 anos ou mais – para explorar o conceito na nossa população.

O estudo encontrou associação entre a capacidade intrínseca e as habilidades funcionais, aquelas que expressam a capacidade da pessoa de realizar atividades diárias essenciais para sua independência, autonomia e bem-estar – por exemplo, fazer compras, manter a higiene pessoal e do lar, orientar-se bem no tempo e no espaço e interagir com outras pessoas.

“Nos resultados do estudo, vemos que as pessoas nos grupos de capacidade intrínseca mais alta têm muito mais preservadas suas habilidades de vida diária, tanto básicas quanto instrumentais”, diz Laiss Bertola.

Não houve uma associação acentuada entre a capacidade intrínseca e a idade cronológica, algo já esperado. “A idade é um fator, mas não mostra muita coisa sozinha. Ela não modifica a associação da sua capacidade intrínseca com a funcionalidade, e acho que esse é o principal achado. A ideia é que, em qualquer idade, alguém com alta capacidade intrínseca no seu processo de envelhecimento terá maiores chances de performar bem funcionalmente”, explica a pesquisadora da FM-USP.

A análise revelou que os fatores sociodemográficos, raça/etnia e nível de escolaridade também não modificaram a relação entre a capacidade intrínseca e as habilidades funcionais. Isso não quer dizer que esses fatores não influenciam na maior ou menor funcionalidade de alguém – pelo contrário, são determinantes do envelhecimento. O achado indica, sim, que o construto “capacidade intrínseca” pode ser aplicado com sucesso a populações em diferentes contextos.

Notavelmente, o sexo modificou a associação entre a capacidade intrínseca e a capacidade funcional. A relação entre a capacidade intrínseca e as atividades da vida diária preservadas foi mais forte em mulheres, demonstrando possíveis diferenças de gênero que não são um problema para uso do conceito, mas precisam ser melhor investigadas.

Pesquisadores da rede e participantes do documentário O Envelhecer de Cada Um – Foto: Divulgação/Agnaldo Dias Correia

Documentário e próximos passos

O grupo agora se concentra nas pesquisas conjuntas sobre envelhecimento saudável no Brasil e no Reino Unido, viabilizadas pela parceria com a Universidade de Newcastle. Um trabalho em finalização, que já teve alguns achados apresentados por Laiss Bertola em evento na FM-USP, compara os resultados da aplicação da capacidade intrínseca aos dados da coorte brasileira, o Elsi, com uma do Reino Unido. Os objetivos são harmonizar a medida de capacidade intrínseca e analisar fatores demográficos associados nos dois países, bem como verificar a relação entre capacidade intrínseca e funcionalidade em ambos.

No mesmo evento, em junho deste ano, foi lançado o documentário O Envelhecer de Cada Um, produção que retrata diferentes trajetórias de envelhecimento, evidenciando como fatores sociais, econômicos e culturais influenciam essa experiência de forma diversa.

Mais que um projeto de divulgação e extensão, a produção do documentário representa em si uma etapa qualitativa da pesquisa, ao colher depoimentos de pessoas diferentes, envelhecendo em ambientes diferentes, com suas percepções.

“O documentário foi justamente uma forma de a gente abordar a percepção das próprias pessoas sobre quais são os eixos que elas consideram importantes para se envelhecer bem. O que é que as pessoas, no seu íntimo, identificam como fatores para isso, e o quanto elas estão ligando envelhecer bem à capacidade funcional delas”, explica Laiss Bertola.

O trabalho teve direção de Gabriel Martinez e produção de Lilian Liang, Marcel Hiratsuka (Geriatria HC-FMUSP) e Claudia K. Suemoto (Geriatria FM-USP), e pode ser assistido no canal da FM-USP no YouTube.

Mais informações pelo site https://www.brazil-uk-aging.org/pt

Fonte: Jornal da USP

Saúde após os 60: a importância do acompanhamento médico no envelhecimento

Você já pensou sobre o envelhecimento?

Para muitas pessoas o envelhecimento é um tabu. Temos a ideia de que, chegados os 60 anos, a vida acaba ficando mais monótona. Entretanto, cada vez mais, os 60 são considerados os novos 40 e se você chegou ou está chegando a essa idade, definitivamente, não é velho.

Certamente, você está experimentando aquela sensação de que é cedo demais para ser rotulado como idoso e aderir ao time da terceira idade. Isso porque a terceira idade ainda possui muitos estigmas e rótulos que já não cabem para a população do século XXI.

Basta lembrar que a expectativa de vida dos brasileiros aumentou em 31,1 anos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma pessoa nascida no Brasil em 2019 tem uma expectativa de vida de em média, até 76,6 anos. 1

Vale ressaltar, também, que segundo os dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) publicado no portal de notícias Agência Brasil, dos 210 milhões brasileiros 37,7 milhões são pessoas idosas, ou seja, que têm 60 anos ou mais. Dessa população 15% ainda trabalham e 75% contribuem para a renda da casa. 2

Os dados mostram que a população acima de 60 anos está saudável é independente e continua contribuindo para o bem-estar da família e da comunidade. O envelhecimento saudável é um processo contínuo que requer mudanças de hábitos para melhorar a saúde física, mental e social. 3

Quer saber como cuidar da sua saúde após os 60 anos? Então, você está no lugar certo. Confira algumas informações sobre a importância dos hábitos saudáveis e acompanhamento médico na terceira idade.

Envelhecimento: Saúde após os 60 anos

Preservar a saúde é uma das principais preocupação das pessoas, principalmente quando chegam na terceira idade. Isso porque ela é fundamental para mantermos uma vida saudável, com qualidade de vida e bem-estar. 4

O processo de envelhecimento, naturalmente, provoca mudanças no corpo e na mente. Por mais que a gente não queira, com o passar dos anos, nosso corpo já não responde aos estímulos da mesma forma que nos nossos 20 anos. 4

Segundo Caderno de Atenção Básica Sobre o Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa, parte das dificuldades encontradas nessa fase da vida estão relacionadas a uma cultura que desvaloriza e limita pessoas na terceira idade. Isso sem falar das doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT) que também podem afetar a funcionalidade dos idosos. 4

Mas isso não quer dizer que não há como ter saúde após os 60 anos. Uma vida saudável não tem a ver com idade, mas, sim, com os hábitos que adotamos no dia a dia. Manter-se ativo fisicamente e mentalmente é um desafio grande para muitos idosos, mas completamente possível. 4

O mais importante é saber que é possível lidar com essas limitações, ter um envelhecimento saudável e quebrar alguns tabus que a sociedade possui em relação à terceira idade.

Confira alguns dos tabus que precisamos começar a quebrar!

Envelhecimento: Pessoas idosas são todas iguais

Certamente, ao longo da vida você deve ter ouvido que somos todos iguais. Em parte, isso é verdade, possuímos os mesmo direitos e deveres na sociedade, mas isso não quer dizer que como seres humanos individuais somos iguais.5

Cada pessoa tem sua personalidade, individualidade, ou seja, características que fazem dela única, como forma de agir, pensar, sentir, valores morais, traços emocionais entre outros aspectos. Agora, se vivemos com essas características únicas a vida toda, por que temos a ideia de que ao chegar aos 60 anos perdemos essa individualidade? 5

Pensar que pessoas idosas são todas iguais é um equívoco muito comum. O erro está em ter uma visão homogênea sobre a velhice, quando, na verdade, ocorre justamente ao contrário. Essa é uma das fases da vida mais diversa que existe, já que a velhice envolve múltiplos aspectos e variáveis que resultam em indivíduos com características, necessidades e objetivos de vida diferentes.5

Ao rotularmos as pessoas idosas, contribuímos para a criação e fortalecimento de estereótipos que tornam a rotina desses indivíduos mais difícil. 5

Pessoas com mais de 60 anos não fazem sexo

Sexo é um tema que causa reações diversas nas pessoas. Alguns encaram com naturalidade, já outros ficam envergonhados ou agem com repulsa só de ouvir falar sobre. 5,6

Se apenas o tema sozinho causa diversas reações, imagina se inserimos ao tema faixa etárias, como sexo na terceira idade. Algumas pessoas certamente se perguntam: existe isso?

O fato é que sexo na terceira idade existe e falamos pouco sobre esse tema. Enxergar a pessoa idosa como um ser humano que não possui mais desejos sexuais também é um estereótipo amplamente difundido na sociedade, mas é importante ter em mente que amor e desejo não têm idade. 5,6

O desejo existe enquanto há vida e pode ser (re)descoberto ao longo das fases da vida. Viver a sexualidade independentemente da idade melhora a autoestima, o bem-estar, a qualidade de vida e a saúde. 6

Por isso, quebrar esse estereótipo de que idosos não fazem sexo é importante para que o tema seja discutido e fique cada vez mais naturalizado para toda a sociedade. 5,6

A importância do acompanhamento médico

Outro tabu muito difundido para a população da terceira idade é de que velhice é sinônimo de doença. Esse é um grande equívoco.

Segundo a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, o envelhecimento está associado a mudanças nos processos biológicos, fisiológicos, ambientais, psicológicos, comportamentais e sociais do ser humano. 7

Mas é importante ressaltar que o envelhecimento não é sinônimo de doença, muito menos, um processo igual para todos. Para algumas pessoas, as mudanças relacionadas a idade são positivas, já outras resultam em declínio em função dos sentidos e atividades da vida cotidiana. 7

O avanço da idade é um fator de risco para o surgimento de doenças crônicas e degenerativas, mas isso não quer dizer que todos teremos doenças ou até mesmo que não haverá qualidade de vida caso desenvolva uma doença crônica como pressão alta, por exemplo. 7

Com mudanças de hábitos, é possível ter um envelhecimento saudável. Uma boa saúde proporciona mais qualidade de vida aos anos. Esses anos adicionais com boa saúde contribuem para que a pessoa continue participando e sendo parte integrante de suas famílias e comunidades.8,9

Por isso, o acompanhamento médico é tão importante para essa fase da vida. Após os 60 anos, o corpo passa por mudanças e fazer o acompanhamento médico especializado é uma forma de ajudar seu corpo e mente a passar por esse processo e garantir saúde e qualidade de vida. 8,9

Não deixe para amanhã o que você pode começar hoje. Faça acompanhamento médico regular e garanta mais saúde e bem-estar para sua vida. 8,9

Que tal, daqui para frente, começarmos a quebrar alguns desses estereótipos? Você pode ajudar outras pessoas a se conscientizarem sobre a importância da quebra dos tabus e cuidados com a saúde compartilhando esse conteúdo. 8,9

Aqui, no blog, temos diversos conteúdos sobre alimentação e exercícios para diversas patologias, além de dicas e informações importantes para o seu tratamento. Fique por aqui e confira outros conteúdos incríveis.

Referências:
  1. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/29502-em-2019-expectativa-de-vida-era-de-76-6-anos7
  2. https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2021-10/dia-nacional-do-idoso-conheca-politicas-publicas-para-essa-populacao
  3. https://antigo.saude.gov.br/saude-de-a-z/saude-da-pessoa-idosa
  4. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/evelhecimento_saude_pessoa_idosa.pdf
  5. https://institutodelongevidademag.org/longevidade-e-saude/autonomia/master-mitos-e-verdades-60-anos
  6. https://www.em.com.br/app/noticia/bem-viver/2019/09/26/interna_bem_viver,1087673/desejo-na-terceira-idade-existe-e-precisa-ser-encarado-de-forma-natura.shtml
  7. https://sbgg.org.br/wp-content/uploads/2020/10/D%C3%A9cada-do-Envelhecimento-Saud%C3%A1vel-2020-2030.pdf
  8. https://sbgg.org.br/envelhecimento-e-longevidade/
  9. https://sbgg.org.br/confira-3-mitos-sobre-o-envelhecimento/
BR-16049. Material destinado a pacientes. Dez/2021