Estudo global mostra tendência variada de obesidade no mundo e critica o termo “epidemia”

Taxas de obesidade aumentaram em quase todos os continentes nos últimos 40 anos, mas zeraram em algumas regiões. Tendências variam entre adultos, crianças e adolescentes, atingindo o nível mais alto em meninas de 110 países

Obesidade cresce rapidamente nos países de baixa e média renda, impulsionada por fatores sociais, econômicos e tecnológicos, e com efeitos mínimos do uso de canetas emagrecedoras – Foto:Ernesto Rosas- Pexels

  • Avanço da obesidade em 2024 foi o maior em 45 anos para países em desenvolvimento
  • Crescimento se estabilizou abaixo de 25% na Europa Ocidental, mas variou até 43% no Reino Unido, Canadá e EUA
  • Total de casos teve crescimento contínuo em países onde a prevalência já era alta
  • Enquanto Japão baixou para 10% os casos em idade escolar, no Brasil população adulta masculina exibiu um aumento acelerado das taxas de obesidade

Uma rede internacional de cientistas acaba de apresentar uma análise da dinâmica da obesidade desde 1980 até 2024 em 197 países, utilizando um vasto conjunto de dados e revelando tendências heterogêneas em diferentes gêneros, faixas etárias e países. O estudo inédito, publicado nesta quarta-feira (13) na revista Nature, mediu a variação anual da porcentagem da população obesa e destacou que não apenas renda, mas fatores sociais, econômicos e tecnológicos influenciam na variação da obesidade pelo mundo, mesmo em países da mesma região.

“Por mais de três décadas temos enquadrado isso como uma epidemia global. E queríamos ver se existe alguma outra camada de complexidade sob esse enquadramento global, único e uniforme”, disse Majid Ezzati, professor do Imperial College London e autor correspondente do estudo, em entrevista coletiva. “Se analisarmos detalhadamente países individuais, em vez de observarmos períodos longos, de quatro ou cinco décadas, podemos ver que houve uma grande mudança na forma como a obesidade está se comportando, que não se encaixa exatamente no quadro de epidemia global.”

A pesquisa reuniu dados de 4.050 estudos de base populacional, abrangendo 232 milhões de participantes com cinco anos ou mais, incluindo medidas de peso e altura. O trabalho levou em conta os padrões de idade, diferenças de populações que vivem em áreas urbanas e rurais, além de possíveis variações nas fontes de dados, que foram normalizadas por meio de técnicas estatísticas. A obesidade foi definida pelo Índice de Massa Corporal (IMC) de 30 kg/m² em adultos. Já em crianças e jovens, o critério foi estar com peso situado dois níveis acima (2 desvios padrão) da média de crescimento definida pela Organização Mundial da Saúde, a OMS.

“Epidemia implica atingir a todos, independentemente do controle individual, como ocorreu com a covid-19. O aumento da obesidade é um fenômeno mundial, com diferenças regionais significativas”, explica o médico Paulo Andrade Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e um dos autores do trabalho. Ao Jornal da USP, ele conta que o trabalho viu uma variação marcada por fatores sociais.

Há desaceleração do aumento da obesidade em países mais ricos e aceleração em países pobres. O grande marcador é social em todos os lugares do mundo.
— Paulo Lotufo

“Chamar esse fenômeno globalmente de ‘epidemia’ acaba mascarando essas diferenças importantes e simplificando excessivamente um processo complexo e dinâmico”, argumenta Alicia Matijasevich, professora da FMUSP e também coautora do artigo publicado na Nature. Ela é uma das pesquisadoras da Coorte de Nascimentos de Pelotas de 2004, um estudo epidemiológico de referência mundial que foi utilizado como base de dados para o trabalho atual.

A pesquisa intitulada Aumento da obesidade estabiliza em países desenvolvidos e acelera em países em desenvolvimento (em português) foi realizada por meio da NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC), uma rede com quase dois mil cientistas que investigam os principais fatores de risco para doenças não transmissíveis. De acordo com o grupo, medicamentos à base de GLP-1, como Wegovy e Ozempic, tiveram efeito mínimo nas tendências atuais devido à baixa cobertura histórica, mas são vistos como fator influente para o futuro.

Desaceleração e platô

O retrato da obesidade feito pelo estudo mostra uma variação significativa entre países, faixa etária e sexo. A prevalência indica o cenário geral da obesidade. Ela mede a proporção da população que apresenta a condição em um período específico. Além de quantificar como a obesidade mudou ao longo do tempo, o estudo do NCD-RisC apresentou uma análise da velocidade dessas mudanças, que é definida como a mudança absoluta anual na prevalência.

“É como dirigir um carro: até onde você foi, mas qual a sua velocidade atual? Então, quanto a obesidade aumentou, mas quanto está aumentando agora? E, novamente, a velocidade tem sido zero ou, em alguns casos, talvez até negativa por algumas décadas”, aponta Majid Ezzati.

No geral, países de alta renda – como os da Europa Ocidental, América do Norte e Australásia – mostraram um aumento da obesidade no início dos anos 1980, mas a maioria conseguiu estabilizar com uma prevalência variável. Na Europa Ocidental, por exemplo, a prevalência da obesidade se estabilizou entre 11% e 23% para adultos e entre 4% e 15% para crianças e adolescentes.

Outros países de alta renda, como o Japão, apresentaram um aumento menos acentuado e se estabilizaram em prevalências mais baixas, sobretudo entre as mulheres. A primeira desaceleração ocorreu por volta de 1990 na Dinamarca, para ambos os sexos, seguida por outros países como Islândia, Suíça, Bélgica e Alemanha. A França foi um dos únicos países onde a prevalência de obesidade em meninos não aumentou entre 1980 e 2024.

Porém, alguns países de alta renda, como Finlândia, Austrália e Suécia, continuaram a ver aumentos constantes ou acelerados da obesidade. Mesmo em países cujos casos de obesidade pararam de aumentar, como os Estados Unidos (EUA), a obesidade se estabilizou em prevalências endêmicas consideradas preocupantes: entre 19 e 25%.

De acordo com a pesquisa, essas diferenças costumam ser explicadas por generalizações comuns, como disponibilidade e marketing de alimentos ultraprocessados, baixos níveis de gasto energético e de atividades físicas – fatores que entram na conta de “macrotendências”, como a urbanização. Mas sozinhos eles não sustentam totalmente as tendências variáveis.

Outros fatores, como normas culturais, status socioeconômico e acesso à saúde, provavelmente desempenham papéis mais significativos. “Estes podem influenciar o que e quanto crianças, adolescentes e adultos comem em casa e em ambientes sociais, o quanto eles participam de esportes, brincadeiras e deslocamentos ativos, normas e percepções sociais relacionadas à imagem corporal e à discordância entre o peso corporal ideal, percebido e real”, afirmam os pesquisadores no trabalho.

“No caso das mulheres, não sabemos se pode estar relacionado à fisiologia, mas inevitavelmente uma grande parte disso está relacionada aos papéis de gênero”, disse Majid Ezzati. O professor do Imperial College London destacou um estudo espanhol que atribuiu o recente declínio nos casos de obesidade em mulheres à mudança nos papéis sociais. “Com mais autonomia, mais participação no trabalho, o comportamento das mulheres em relação à alimentação e à atividade física pode ter mudado”, comentou.

Apesar da tendência de estabilização, o estudo aponta alguns países que conseguiram desacelerar o aumento da obesidade nas pessoas mais jovens, incluindo Croácia e Eslovênia, para ambos os sexos, e República Tcheca e Montenegro, para meninos. Já em países de renda média, como o Quirguistão e o Cazaquistão, crianças e adolescentes em idade escolar, especialmente meninas, não tiveram o aumento da obesidade observado em outros lugares ao longo dessas quatro décadas; pelo contrário: houve um declínio em meados dos anos 2000.

O Sul Global na contramão

Em contrapartida, a maioria dos países de baixa e média renda experimentou um crescimento contínuo na prevalência da obesidade, muitas vezes superando os países de alta renda. Essa aceleração foi identificada em regiões como Ásia, África, América Latina, países do Caribe e nações das ilhas do Pacífico.

Nesses locais, a velocidade da obesidade foi maior em 2024 do que em qualquer outro ano desde 1980 para meninas em 110 países e meninos em 91 países. Alguns dos países com as velocidades mais altas foram Tonga e Samoa, na Oceania, e Peru, na América do Sul.

Entre os adultos, o aumento da obesidade também foi maior em 2024 para mulheres em 84 países e para homens em 109 países, principalmente em regiões de baixa e média renda.

“Em alguns países pobres, a obesidade ainda tem prevalência relativamente baixa, mas cresce rapidamente; em outros, a obesidade já atingiu prevalências muito elevadas e continua aumentando. Isso está relacionado a transformações econômicas e sociais ocorridas nesses países, como: mecanização do trabalho e do transporte; aumento do poder de compra; expansão da comercialização e do marketing de alimentos ultraprocessados; mudanças nos padrões alimentares e de atividade física”, observa Alicia Matijasevich. A professora da FMUSP explica que um dos argumentos do trabalho é a ausência de políticas públicas que garantam o acesso regular a alimentos saudáveis e minimamente processados.

Muitos países em desenvolvimento concentraram seus esforços em combater a desnutrição, e houve pouca resposta regulatória ao avanço do marketing de produtos pouco saudáveis, como bebidas açucaradas.
– Alicia Matijasevich

No Brasil, a mudança absoluta anual na prevalência da obesidade mostrou um padrão acelerado ao longo dos 45 anos analisados pela pesquisa. O País estava entre os países da América Latina analisados nos quais, para homens adultos, a prevalência da obesidade aumentou a uma velocidade de mais de 0,5 pontos percentuais em 2024. Para fins de comparação, no mesmo ano, a maioria dos países de alta renda (como Itália e Portugal) apresentava velocidades algumas vezes indistinguíveis de zero.

Perguntado sobre a situação da obesidade no Brasil, Majid Ezzati disse ao Jornal da USP que o estudo observou um aumento da obesidade mais significativo em homens, um caso particularmente diferente do que ocorre no restante dos países observados. “Alguns dos níveis mais baixos são entre as mulheres e alguns dos níveis mais altos absolutos no mundo também são entre as mulheres. Os homens variam entre os países, tanto em termos de quão alta a obesidade se torna, quanto em quão rápido ela está mudando.” Para ele, a questão de gênero “é algo absolutamente fascinante e precisa ser investigado mais a fundo”.

Faca de dois gumes

Países do Oriente Médio também apresentaram diferenças nas tendências de obesidade. No Kuwait, por exemplo, se estabilizou, mas continua a aumentar no Irã, Omã e Arábia Saudita.

Na África Oriental, incluindo países como Etiópia e Ruanda, a prevalência entre adultos em 2024 foi inferior a 5%, mas atingiu de 30 a 40% em alguns países da Europa Central, como Romênia e República Tcheca, e da América Latina, como no Brasil.

Para os autores do artigo, a dinâmica variada da obesidade no mundo exige intervenções políticas personalizadas e adaptadas para as realidades de cada país, em vez de abordagens generalizadas. As desacelerações e reversões observadas em alguns países de alta renda demonstram que o aumento da obesidade pode ser não só contido, mas estabilizado em níveis mais baixos de prevalência.

“O aumento do crescimento econômico levou a uma maior renda familiar recentemente, e o poder de compra para acessar alimentos não saudáveis está se tornando muito mais fácil”, disse Guha Pradeepa Rajendra Prabhu, do Madras Diabetes Research Foundation, na Índia, e também coautora do artigo. A pesquisadora destacou a rápida transição da ingestão de alimentos tradicionais, com dietas ricas em grãos integrais, vegetais e leguminosas, para alimentos processados com alta em açúcares adicionados, sal e gordura saturada, em países subdesenvolvidos.

Substituir cerca de 5 a 10% de carboidratos por 25% de proteína, diminuiria o risco de desenvolver distúrbios metabólicos, tanto em áreas urbanas quanto rurais.
– Guha Pradeepa

Guha Pradeepa também lembrou que o uso de telas, por adultos e crianças, tem aprofundado estilos de vida sedentários nos países mais pobres. “Devido à rápida urbanização, há pouco espaço para caminhar, andar de bicicleta ou mesmo brincar. As crianças não brincam e há uma maior dependência de veículos motorizados.”

“Essas desigualdades estruturais têm papel central nas tendências da obesidade”, conclui Alicia Matijasevich.

O artigo Obesity rise plateaus in developed nations and accelerates in developing nations já está disponível no site da Revista Nature.

Canabinoides sintéticos, uma ameaça à saúde pública

Cerca de 100 vezes mais forte que a natural, os canabinoides sintéticos começaram a serem comercializados em presídios. Hoje, é a substância sintética mais comum em São Paulo

Há alguns anos, uma droga tomou conta dos presídios e invadiu as ruas: a maconha sintética. A droga surgiu a partir da tentativa de separar os efeitos psicoativos das propriedades medicinais da Cannabis Sativa e, no último ano, teve um crescimento de 600% nas apreensões por parte do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o Gaeco.

“Os canabinoides sintéticos, conhecidos popularmente como maconha sintética, K2, K4 e Spice, são substâncias que agem nas mesmas regiões do cérebro que o princípio ativo da Cannabis Sativa, o THC, presente nos cigarros de maconha”, explica Maurício Yonamine, professor do Departamento de Análises Clínicas e Toxicológicas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP. Ela se apresenta de várias maneiras: dentro de saquinhos metalizados, na forma líquida (para cigarros eletrônicos), na forma de selos ou infusionadas em papel.

A droga é cerca de 100 vezes mais forte do que a maconha e, em 2016, causou em New Haven, ao lado da Universidade de Yale, uma overdose coletiva. Mais de 70 ocorrências foram registradas. A mesma coisa aconteceu em Nova York, onde usuários, por conta dos efeitos da droga, ficaram parecendo “zumbis”, vagando sem rumo e não respondendo a estímulos.

O Relatório Mundial sobre Drogas 2022 estima que 284 milhões de pessoas entre os 15 e 64 anos usaram drogas em 2020, um aumento de 26% em relação aos dez anos anteriores. A pandemia impediu que novos dados fossem coletados, mas houve um crescimento da insegurança e da vulnerabilidade, algo que tem impacto direto no consumo de drogas.

Segundo o Primeiro Informe do Subsistema de Alerta Rápido sobre Drogas (SAR), 135 países já reportaram identificar as chamadas Novas Substâncias Psicoativas, entre as quais os canabinoides sintéticos (incluindo as maconhas sintéticas). O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) registrou um aumento de 300% no número de novas substâncias psicoativas entre 2009 e 2019. O Núcleo de Exames de Entorpecentes fez 1.274 análises de substâncias sintéticas e, destas, 42% eram canabinoides sintéticos. Esse é o tipo de substância mais comum no Estado de São Paulo, segundo o informe.

Difícil identificação

Por se tratarem de substâncias facilmente modificadas no nível molecular, são muito difíceis de serem identificadas e a cada momento uma nova pode surgir. A sua fiscalização, portanto, é um desafio para a polícia e para os exames toxicológicos. Medidas como a aprovação da Portaria Nº 898, de 6 de junho de 2015, que criou o Grupo de Trabalho para regulamentar e aperfeiçoar a classificação e buscar novas estratégias ao controle das drogas, e o Projeto Minerva, que visa a preparar e capacitar peritos para identificar as novas substâncias, são caminhos para o enfrentamento.

Medidas como essas são de extrema importância, já que essas substâncias não estão listadas na Convenção Única de Entorpecentes, de 1961, nem na Convenção sobre Substâncias Psicoativas, de 1971. De forma que não há efetivamente um controle internacional.

Ela foi primeiro comercializada dentro dos presídios, e o Ministério Público de São Paulo estima que organizações criminosas já arrecadaram mais de R$ 1 milhão por mês com o tráfico e comércio dessa droga. Por ter vários formatos, a fiscalização é mais complicada e exige aparelhos de identificação nos laboratórios muito caros, além do constante aprimoramento dos cientistas, que sempre têm que decodificar uma nova combinação de elementos químicos sintéticos. “Como são drogas novas, a sua identificação representa um grande desafio para a polícia científica e não só no Brasil. É um desafio mundial”, alerta o professor.

“A gente tem fiscalização das polícias federais de todos os Estados. Mas isso é insuficiente para coibir em grande quantidade o tráfico, porque é muito lucrativo”, explica o professor titular da Faculdade de Direito da USP, Sérgio Salomão Shecaira. Por ter uma extensa faixa de fronteira com outros países, uns deles conhecidamente núcleo de tráfico de drogas, mesmo com alguma fiscalização, “é impossível ter um controle sobre a entrada de drogas no Brasil”, finaliza.

Para Marcelo da Silveira Campos, doutor em Sociologia pela USP e professor adjunto do Instituto de Ciências Humanas da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), o problema das drogas é, antes de tudo, um problema de saúde pública. Assim, combater o uso e o tráfico conta também com o tratamento dos usuários e dependentes por meio de políticas públicas que funcionem. Usar apenas a lei e recorrer ao encarceramento em todos os casos, portanto, não é a solução.

Desde 2006, a Lei n° 11.343 instituiu o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad), mais conhecido como a Lei de Drogas. Ela pressupõe “a prevenção do uso indevido, atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas”. Também conta com o apoio entre várias instâncias do governo, não só a força policial.

Outro ponto comentado por Campos é sobre o perfil dos incriminados pelo crime. Classe social, gênero, condição financeira, nível de escolaridade e raça são fatores determinantes para o consumo, tráfico e, principalmente, na hora de escolher quem deve levar a maior pena. “As mulheres são muito mais incriminadas que as pessoas nas periferias de São Paulo, cerca de duas vezes mais por tráfico do que com o uso, muitas vezes com as mesmas quantidades de drogas”, diz.

Muitas vezes aqueles que mais usam não são presos, por conta da posição social. A lei não chega a esses, que são capazes de pagar fiança ou não são vistos pela sociedade como possíveis traficantes ou usuários, como aqueles que estão em posições mais vulneráveis e de maior preconceito.

Por Julia Estanislau

FONTE: Jornal da USP